Se o ovo nascia antes da galinha, a exclamação vinha antes do parto. Reverberando entre gritos de ternura e de tesão, a vida sempre se encontrou perante uma palavra: ou xingamento, senão. E, enquanto escrevo essa crônica, me lembro da história de uma criança melequenta que habitava os corredores da casa ao lado da minha. Desde antes da sua concepção, já se dizia:
— Se for uma menina, irá se apelidar de doce.
Esse discurso era seguido de incontáveis sonhos, quando já se nomeavam os dedos, a barra da saia, a profissão e o tamanho do calçado daquele ser humano. Será esbelta porém forte, será inteligente porém destemida, será gentil porém dura. Pisará leve, porém grande.
Assim, Doce nasceu. Após doze horas de penumbra extensa, doze palavrões e um doce suspiro ao final do período expulsivo. Era, agora, Doce que descia para dizer ao mundo suas únicas palavras não salgadas. E como quem observa de longe um livro ser escrito, acompanhei o crescimento da tal menina.
A primeira vez que Doce chorou, era de fome. Sua mãe lhe deu leite como quem cala a boca de quem não aprendeu a falar. Seu choro era sutil, mas ecoava pelas grades e basculantes do meu corredor irritantemente compartilhado. Com ela eu dividia um desconforto abdominal de uma cólica esquisita e amarga. Repartia também o cheiro, azedo, enjoado e aliviante como só um mecônio pode prover.
Quis rir da primeira vez que a criança apareceu em minha janela a explorar pétalas da minúscula ixora que eu cultivava. Aprendia inglês, e seus dedos contavam a coroa: “one, two, tree, four…”. Mas, antes de terminar de confundir a árvore com o fruto da semente, a criança já apresentava o grunhir de quem coça a garganta antes de espirrar. Sua mãe, ao longe, dizia que a quem tem rinite os deuses presentearam o doce e o amargo de sentir os perfumes.
Houve outros momentos de confusões conceituais. Num almoço de domingo, o cardápio se fartava de pratos diversos como arroz, feijão vermelho, salpicão de pobre, frango com cebola e fruta-pão frito na manteiga. Doce, inquieta, dizia:
— Como a fruta pode ser pão se não tem farinha?
Eu sorria como quem espia de um cofre os brilhantes segredos enclausurados. Cheguei a virar sua confidente, escutando em sua adolescência o farfalhar da juventude. Ia para a escola com um bocejo inquieto e voltava com a bolsa repleta de decepções. A garota, então grande, encarava os desafios dos primeiros sabores agridoces da rejeição. Eu pedia licença e lhe confessava: “namorado é igual biscoito, vai um e vem oito”. Ela sorria tímida como quem tropeça no conceito:
— Eu queria mesmo é um bolo.
Hoje, Doce já não é vista por mim há anos. Deu rumo à vida e à sua palavra. Eu, porém, continuei na vila em que vivíamos e entendi com ela a escutar o eterno mal-entendido entre o significante e o significado. Me tornei escritora.
Me encontro, agora, espiando pelo basculante de minha cozinha como quem procura o direito de dizer palavras salgadas. Estranha coisa essa que faço diariamente por e para sobreviver: dizer palavras salgadas devido ao preâmbulo de um livro em que o título era doce.

Larissa Valdier é mineira de Muriaé e vive no Rio de Janeiro. É médica formada pela UFJF e realiza formação em psiquiatria na Unidade Docente Assistencial de Psiquiatria do Hospital Universitário Pedro Ernesto (UERJ). Publicou pela primeira vez na coletânea Coisas que as mulheres escrevem (2019) e participou de iniciativas como o Prêmio Poetize 2019 e o projeto Micros-Beagá. Publicou seu primeiro livro, Através da fresta (2026), pela Caravana Grupo Editorial.
