Revisão “na unha”

Para ser um bom escritor é preciso ser um bom leitor, desses que leem de tudo, de obras literárias a placas de trânsito, para compor repertório e criar o seu estilo. No que tange aos textos de literatura, não importa o gênero, mas certamente a identificação com este ou aquele são importantes para que o leitor vá se aprofundando nos temas que lhes são caros rumo à definição daquilo que lhe interessa escrever, se poesia, prosa, teatro etc.

Aprendi a ler literatura na escola, não tínhamos hábito de leitura ou de comprar livros em casa, porque nos anos de 1990 a urgência era sobreviver. A crise econômica e as questões familiares pedindo objetividade. Eu lia muito ciências, história e geografia, curioso e ágil, ampliando meus horizontes de menino. Aos 14 anos, ou pelos 16, não me lembro bem, passava as tardes no quarto a ler. Nessa época devorei Fausto, de Goethe, O Livro dos Sete Anéis, de Musashi, O Príncipe, de Maquiavel, leituras de fôlego, pesadas. Depois descobri os franceses, ao passo que fui aprender o idioma quando estava na faculdade, no curso de letras. Percorri o teatro clássico, os realistas e os naturalistas brasileiros. Lispector, Rubem Fonseca, Borges, Ocampo, García Márquez, e tantos outros.

Pesquisando a vida de alguns desses grandes nomes, me arrisquei na poesia. Textos péssimos, todos jogados fora. Depois, passei ao conto, e antes, pela crônica. Fui ficando nos textos curtos, aprendendo com Colasanti, Rubião e Olavo Romano. Aliás, com meu Mano Velho, grande mestre de saudosa lembrança, aprendi que, mais importante que escrever é reescrever, revisar à exaustão. Sua obra-prima, Casos de Minas, que caminha para quase 50 anos desde a primeira edição, contou-me, foi revisado “na unha” porque não havia a facilidade do computador. Foi “batido à máquina”. Não havia copiar e colar, abrir páginas na internet e pesquisar isto ou aquilo. Estava tudo no “besunto da memória”, como dizia. Ou seja, além de um repertório imenso acumulado ao longo da vida e de uma formação humana rica em sentidos e valores, seus textos eram pensados e repensados até que chegassem ao livro. Ao cabo, como ele, também fiquei cabreiro com o tema, deixando meus contos na gaveta, ou melhor, no HD e na nuvem, por muitos anos, maturando. Já não preciso descartar muita coisa, sei meu tom, meus temas e tenho meu jeito de contar. Então vou reciclando, juntando causos, formando meus livrinhos com as histórias da nossa gente preta nesse mundão de Deus sem porteira.

Talvez por ter lido toda essa gente boa de prosa e ter sido um bom aprendiz, tenha tomado gosto de pesquisar e escrever com afinco, e daí me assustar hoje, como editor, com a quantidade de autores que usam o recurso da inteligência artificial para, dizem, “melhorar o texto”, “conferir algo” ou “revisar” sua escrita. Sinceramente, me parece preguiça de pesquisar em livros ou na internet mesmo, uma concessão perigosa em desfavor da criatividade, do retirar-se do mundo imediato para se dedicar à própria obra. Ou falta de talento para a coisa. Não deve haver urgência em publicar, podemos esperar uns dias, uns meses, até alguns anos para, finalmente, dar ao mundo um livro que seja verdadeiro, obra do engenho pessoal, fruto do esforço e do talento.

Por isso, para além das obras que leio dos nossos autores publicadas em vários idiomas mundo afora, vez em sempre volto aos meus clássicos pessoais, que foram escritos no muque, tirando das cabeças e memórias de quem as concebeu, as verdadeiras e as inventadas, as suas histórias.

Leonardo Costaneto vive entre Belo Horizonte e Ouro Preto, no Brasil. Além de escritor, é editor e livreiro, em Buenos Aires.