A palavra e o poeta

Desde muito cedo, aprendi a amar a palavra. Percorria os dicionários como se fossem belos romances. Nos livros, antes da grande história, buscava uma boa mistura de frases bem construídas. A forma, na maioria das vezes, interessava muito mais do que o conteúdo. A alquimia de misturar palavras para compor um escultura textual apaixonante aos olhos, ouvidos e emoções do leitor é tarefa muito difícil. Alguns autores levam anos em busca da frase perfeita. Entre blocos de rascunho, vinho e o violão, compositores e poetas enganam o sono; adiam as manhãs na procura do melhor verso para reunir sujeitos e verbos às melodias e ao tom certo. Isso, quando não se permitem lindos devaneios à luz do dia para abusar de sedutores galicismos.

Sempre achei muito interessante acompanhar o processo criativo na sua gênese. No meu caso em particular, muitas histórias nascem do ato de sentar em silêncio; de caminhar pela areia ou pelas ruas, sentindo que, de uma hora para outra, serei inundada por aquela chuva, as vezes leve, noutras, torrencial e devastadora de palavras. Agrada-me, ainda, acompanhar o criar compartilhado e suas múltiplas visões do mundo. Ver o nascimento de uma canção, um livro ou um poema a partir da troca de ideias e vivências de parceiros, comum no mundo da música. Na literatura, assistir, com interesse, os   projetos de escrita colaborativa. Livros feitos a várias mãos; com autores que se sucedem nos capítulos, deixando neles, além da participação na sequência da trama, sua marca pessoal.

Mas, seja qual for o modo de criação, acredito que em nenhum outro lugar as palavras se sentem tão à vontade quanto no coração do poeta. Elas acordam, dormem, dançam, brincam e amadurecem por ali. E ansiosas por liberdade, explodem em versos para nos encantar. Depois de ler um bom poema, podemos dizer como o mestre Carlos Drummond de Andrade: “Já não quero dicionários consultados em vão. Quero só a palavra que nunca estará neles nem se pode inventar.  Que resumiria o mundo e o substituiria. Mais sol do que o sol, dentro da qual vivêssemos todos em comunhão, mudos, saboreando-a.”

Luciana Konradt é jornalista e advogada. Publicou os livros Bordados do tempo, Boiada de elefantes e outras histórias curtas, Canto de palavras e pássaros, Caderno de rascunhos e outras crônicas, Excesso de bagagem e outras crônicas e Retalhos e rendas. Foi colunista do jornal Diário Popular, de Pelotas, e do site da revista O Odisseu. É membro da Associação Gaúcha de Escritores e da União Brasileira de Escritores.