O apólogo do Ah e do Há

O apólogo do Ah e do Há

Nunca confiei nas gramáticas.

Os gramáticos chegam sempre depois do crime. Encontram as palavras caídas no chão, medem-lhes as sílabas, fotografam os acentos, recolhem impressões digitais das consoantes e decretam, com pompa científica, que sempre foi assim.

Mentem.

Muito antes das regras houve sangue. Correria e o caos a ser abraçado pela luz.

Há sempre um contentamento em ser, escondido no ter de haver.

É uma pista antiga. Talvez a única.

Será este espelho torto de apenas duas letras o Santo Graal da língua portuguesa?

Quem dos dois é mais Ulisses? O errante “ah” ou o doméstico “há”?

Passei duzentos mil anos, sim 200 mil a perseguir essa resposta.

A polícia arquivou o caso por falta de provas. Os linguistas chamaram-lhe folclore. Os filósofos preferiram discutir se o espanto podia existir antes da linguagem, como se o espanto alguma vez pedisse autorização para nascer.

Mas eu estive lá.

Era investigador naquela época.

Ninguém acredita porque aconteceu no bairro da Gávea, poucos instantes antes da extinção dos dinossauros.

Sei o que estão a pensar.

Não havia polícia.

Pois não.

Foi precisamente por isso que me chamaram.

Cheguei ao local ao cair da tarde. Um pterodáctilo descrevia círculos no céu como um helicóptero cansado. O chão ainda fumegava dos primeiros ensaios do futuro. Lava errante de cor da ferrugem.

O cadáver ainda respirava.

Era o silêncio.

Foi então que o ouvi.

— Ah…

Não era uma palavra.

Era uma queda.

Uma mulher olhava para o horizonte onde ainda não existia horizonte. Não gritava de dor. Nunca vi o “ah” nascer na boca de uma mulher que dá à luz. Isso é uma calúnia repetida pelos dicionários. O “ah” não nasce da dor.

Nasce do espanto.

É uma ladeira abaixo da consciência. Um rebolar do morro para a praia.

Uma avalanche que leva consigo todas as explicações.

Nenhum homem consegue produzir um verdadeiro “ah”.

Eles tentam. Ensaiam diante do espelho. O resultado parece sempre um discurso interrompido.

O espanto masculino precisa de três teorias, dois mapas e uma nota de rodapé.

O feminino basta-se com duas letras.

O “ah” é a mais kantiana das interjeições porque suspende o juízo precisamente quando a Razão acredita ter chegado primeiro.

Foi então que surgiu o outro.

Há.

Sussurrado, dengosamente.

Disse-o sem levantar a voz.

Era um ser estranho. Tinha a serenidade dos arquivos e a arrogância dos notários. Caminhava como quem sempre soube que existiria amanhã.

Percebi imediatamente que aquele “há” era bissexual.

E ainda bem.

Tudo o que existe verdadeiramente recusa escolher um único corpo.

O “há” não pertence aos homens nem às mulheres.

Pertence ao verbo haver.

Pertence ao ar.

Ao espaço entre uma respiração e outra.

Ao direito universal de existir.

Os dois ficaram frente a frente.

O “ah” respirava pela primeira vez.

O “há” respirava desde sempre.

Foi então que aconteceu.

Nenhum dos dois pronunciou palavra.

Mesmo assim, entenderam-se.

Foi um encontro tão silencioso que um tiranossauro começou a chorar sem saber porquê.

Foi nesse instante que apareceu a primeira vírgula da História.

Depois vieram as frases.

Depois as promessas.

Depois os contratos.

Depois os advogados.

Muito depois inventaram a gramática para esconder o que realmente acontecera.

Quando os dinossauros desapareceram, toda a gente culpou um meteorito.

Eu não.

Conheço a verdade.

Não foi uma pedra.

Foi uma conversa.

O Universo, ao ouvir pela primeira vez o “ah” e o “há” encontrarem-se, percebeu que finalmente havia testemunhas.

E tudo aquilo que passa a ter testemunhas começa imediatamente a envelhecer.

Desde então vivo a investigar este caso.

Ainda hoje encontro vestígios do “ah” nos olhos das crianças, nos amantes que se despem pela primeira vez, nos velhos que descobrem que a memória continua a crescer para trás.

E encontro o “há” em todos os lugares onde alguém insiste em continuar.

Há pão.

Há guerra.

Há música.

Há tempo.

Há.

Quanto a mim, continuo cego.

Foi por isso que ouvi tudo.

A visão distrai.

A cegueira, pelo contrário, é uma excelente profissão para quem investiga as palavras.

MINIBIOGRAFIA

Raul Ribeiro nasceu na Zambézia, do sangue que escorreu da orelha de Van Gogh. Foi produtor musical e produtor executivo de shows ao vivo pelo mundo fora. Trabalhou o som e o silêncio como dois esses que se amparam. Viveu na Beira, em Moçambique, em Lisboa, em Portugal, em Amesterdão, na Holanda, e em Londres, no Reino Unido. O Rio de Janeiro é a sua casa, e o Arpoador, a sua praia. Recebeu bolsa do Centro Nacional de Cultura, Portugal. Domina vários idiomas, mas a língua portuguesa é o seu altar.