Alguns artistas não aprenderam a falar. Somos inaptos com a boca. Mas o corpo é sábio e o coração pulsa forte. O sangue circula e circula e uma hora as gotas extravasam pela pele, escorrem pela tinta da caneta e preenchem um espaço infinitamente vazio. E quando o mundo aperta muito e o coração fica pesado demais, a gente transborda inteiro. Nós, que não sabemos falar, transmutamos os sentimentos em arte, nos completamos na beleza das palavras e nos aliviamos no acolhimento dos poemas. Escrever é me rasgar inteiro. Transbordo em uma tela e ela é meu rim. Derreto-me a cada linha e elas são meu fígado. E assim, costurando-me aos poucos com retalhos de palavras, remonto-me, limpo, desintoxicado das impurezas dos sentimentos. E em seguida, a vida, nada inócua, acontece de novo. Sou, assim, um eterno preenchimento de um espaço infinito, que, vazio, se enche e enche e continua vazio, já que, a cada nova arte, nós nos expandimos e a ausência cresce junto. Sou em mim um mundo inteiro.
Henrique Malta Guimarães é um jovem poeta e estudante de Medicina. Sempre apaixonado pelas Artes, começou a escrever durante o cursinho pré-vestibular, momento em que teve contato profundo com a Literatura e no qual surgiram os primeiros sintomas da depressão. Seus textos foram refúgios e salvação, construídos como reflexo de seu mundo interno. Suas poesias são impregnadas de sentimentos processados por uma mente neurodivergente, que expressa no papel o que a boca não consegue falar.
Título da obra: Na borda do tempo
Autor: Henrique Malta Guimarães
Gênero da Obra: Crônica
Formato: 14x20 cm
ISBN: 978
Número de páginas:
Editora: Caravana
Capa e editoração eletrônica: Ramiro Magalhães





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