Nos contos que compõem esta obra, Júlio Ardaia apresenta recortes narrativos distintos, mas ainda assim coesos e marcados por uma assinatura singular. Ambientados em cenários decididamente amazônicos, as narrativas extrapolam o imaginário comumente atribuído à região em favor de um fantástico e um estranho ora sutis, ora arrebatadores, em causos contados em volta de fogueiras, em reportagens sensacionalistas ou em diários que relatam horrores lovecraftianos. Nestas páginas, nos deparamos com aquilo que espreita por entre as árvores, se insere por debaixo das frestas, se recusa a deixar de habitar o interior profundo do existir, justamente por fazer morada na inexorabilidade da memória pessoal ou coletiva. É justamente a latência dessa memória, uma escuridão difusa ou capaz de devorar toda a luz, que torna as narrativas de Júlio Ardaia tão ressoantes. São, afinal, uma lembrança de que os dentes da sombra de quem tu és sempre estarão a uma mordida dos teus pés.
Gabriel Yared

Júlio Ardaia nasceu na pequena cidade de Guajará-Mirim, à margem direita do Rio Mamoré, na Amazônia. Cresceu ouvindo histórias narradas pelos mais velhos, em torno de uma lamparina noite adentro. Histórias que acompanharam seus devaneios pela vida, até encasquetar que ele mesmo deveria contar algumas. Hoje, além de escrever histórias, pesquisa literatura rondoniense e literatura amazônica, enquanto paga pela ração do Aparecido e tenta decidir, diariamente, o que vai comer na próxima refeição.



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