Aliás, os diários na vida de uma menina nascida na década de 80 são um capítulo à parte. Poucas não tiveram um, com capa dura, cheirinho nas páginas e o clássico cadeado, como se fosse suficiente para nos proteger. Analisada retrospectivamente, sua existência acabou por revelar o nosso desejo de privacidade, de produzir algo próprio e individual.
Porém, apesar da empolgação inicial, meus cadernos iam sendo abandonados, um a um. A leitura permanecia. Sem sistematicidade de gênero, mas com frequência. Confesso que não tinha o hábito de frequentar bibliotecas, mas pegava os livros dos meus pais. Lembro também, com carinho, de uma viagem em que entrei numa Barnes & Noble pela primeira vez. Aquele modelo de livraria era um convite para permanecer e ainda não existia no Brasil.
Os cafés, os sofás… a possibilidade de ler sem pagar. Para uma estudante sem grana, aquilo era emocionante como praticar uma pequena contravenção. Eu podia sentar e ler os livros que conseguisse. Até hoje preciso controlar essa vontade, embora a vida fique cada vez mais curta para tantos títulos.
Mas o que me fez parar para escrever — ou melhor, para me tornar aquilo que chamam de escritora, já depois dos 40 anos — foi a vida. A intensidade e o acúmulo de experiências e um certo cansaço. Em determinado momento, acho que quis me esconder do excesso de estímulos. Agora vou ficar em casa, pensei. Gasto menos dinheiro, arrumo menos problemas, me anestesio do excesso de mundo.
Voltei-me para dentro nos tempos livres. Quanto mais lia, mais escrevia. Quanto mais escrevia, mais queria ler. Mas em determinado momento fui readquirindo a curiosidade pela convivência. Os processos se retroalimentam, pois são as pessoas, afinal, a essência das histórias.
Não foi possível esquecer de vez a vida. Na verdade, o que a literatura pôde fazer — embora alguns contestem, sob o justo medo de mistificação — foi me ajudar a viver melhor. Afinal, um personagem já passou pelo mesmo que eu. Já encontrou outra saída e pensou noutra possibilidade. Ou já se sentiu exatamente como eu.
E assim, vida e literatura deixam de ser estanques e passam a compartilhar um mesmo espaço afetivo, que é verdade, mas também é ficção. Um lugar em que imaginar produz no corpo sensações muito semelhantes às de quem realmente vive uma experiência (e a Neurociência afirma que isso é possível).
O pavor que eu tinha de sentir demais passou a ser útil para escrever. A impressão de sentir errado transformou-se em ponto de vista. Percebi até que algumas pessoas se identificavam comigo, e que o meu sentimento de inadequação, afinal, não era tão diferente do de tantas outras pessoas que habitam este mundo, nascidas com a mesma fisiologia e guiadas pelo radar de um sistema nervoso altamente sensível.
Dentre todas as conclusões pessoais — ainda que temporárias, porque, como diz o bom e velho Lulu Santos, “tudo muda o tempo todo no mundo” — destaco duas atuais: escrever é essencial; e viver é inevitável. Talvez uma coisa seja justamente a maneira que encontrei de continuar fazendo a outra.

Carolina Lins nasceu no Rio de Janeiro, em 1983. Se formou em direito na UERJ, fez mestrado em direito de energia e recursos na Queen Mary University of London. Trabalha com direito público desde 2006. Depois da maternidade, se pós-graduou em neurociências, comportamento e desenvolvimento infantil, na PUC Rio Grande do Sul. Atualmente, dedica-se aos filhos, ao trabalho e à paixão pela literatura. Publicou seu primeiro livro, Vila de Papel (2025) e Sabe a Amor (2026).
