“Um carro parado, uma vida em apuros e não vou ser eu quem vai ligar pra ambulância. Infarto? Sono? As mortes no trânsito são uma roleta russa, sobrevive quem tem sorte. Já disse, tenho pressa.” Marcos Paulo arma com engenho trinta crônicas portadoras daquele olhar inaugural para um mundo já desgastado. Com ingenuidade e cinismo, investiga um mundo feito de cidade, amigos e paixões – tríade temática que guia a leitura e se torna alvo de escrutínio do narrador, que fustiga sem dó os dilemas da vida que se insinua. Histórias que vêm do fundo, crescem e minguam, mas que não quebram na areia. Banhistas presos ao vai-e-vem esperam desavisados pelo estrondo que não chega. E não chegará. Assim, finalmente, conseguem aproveitar a água. E um narrador que clama por piedade e parecer estar sempre a um passo de se desculpar pela própria existência. Com vícios bêbados e paixões sóbrias, se vangloria da distância que construiu em relação ao mundo como se ela fosse um mérito, e não um destino. Que prazer é acompanhar o ecoar de suas angústias ocas e igualmente imprescindíveis.
Sofia Azevedo

Marcos Paulo Pereira Filho nasceu em São Caetano do Sul, em 2000. Formado em Geografia pela USP, é professor da rede municipal de ensino de São Paulo. Eu sou um prego e ela o martelo é seu livro de crônicas de estréia.



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