E é assim que deve ser, não? Uma crônica filosófica, teológica, jurisprudencial seria o mesmo que escrever poemas-piada numa petição ou num laudo médico. Cada coisa em seu lugar. E o lugar da coisa é a liberdade de uma conversa de bar. Não que se esteja bêbado. Não! Às vezes não se está nem bebendo. Está-se é quase gagá, criançola, meio mentecapto. É assim mesmo. Porque o cronista é um crônico. O pancada e lírico e contador de causos vai se entregando ao próprio deleite de não estar fazendo nada. A não ser escrevendo. E com todo o seu ócio conjurado. Ociosidade. A ociosidade das estrelas. Dos vasos de gerânios. Dos vira-latas. A ociosidade dos comentaristas e maledicentes da bocha e da biriba. Sem ociosidade — mesmo que haja prazos e chefes engravatados enchendo o saco —, sem ociosidade uma crônica vira um artigo. E um artigo querendo ser crônica pesa igual a um rinoceronte sobre o galho da cerejeira.

Rodrigo Madeira nasceu em Foz do Iguaçu, PR, em 1979. É autor dos livros Sol sem pálpebras (2007), Pássaro ruim (2009) e Baldio (2018). Seu poema Balada da Cruz Machado foi adaptado para o cinema por Terence Keller (curta-metragem, 2009).


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