{"id":7308,"date":"2021-12-27T15:41:30","date_gmt":"2021-12-27T15:41:30","guid":{"rendered":"https:\/\/caravanagrupoeditorial.com\/?p=7308"},"modified":"2021-12-27T15:41:32","modified_gmt":"2021-12-27T15:41:32","slug":"poetas-versam-sobre-possibilidades-de-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/caravanagrupoeditorial.com\/es_uy\/poetas-versam-sobre-possibilidades-de-futuro\/","title":{"rendered":"Poetas versam sobre possibilidades de futuro"},"content":{"rendered":"<p>Em estrofes sobre os olhos piscados para despregar a remela da perplexidade, Jamesson e Tarsilla situam os poemas ao contexto das crises pol\u00edticas brasileiras.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e1quinas n\u00e3o acordam com o cheiro do caf\u00e9 e nem sulcam a l\u00edngua para textualizar o mundo. Em 35 poemas, dos quais 32 s\u00e3o distribu\u00eddos em quatro conjuntos organizados em quatro partes, a obra \u201cCoisas Que M\u00e1quinas N\u00e3o Podem Fazer\u201d, dos poetas Jamesson Buarque e Tarsilla Couto de Brito, versa sobre possibilidade de futuro a respeito de pol\u00edticas de controle social que empreendem seus atos com suporte em tecnologias, desde aquelas atualizadas no passado at\u00e9 as conhecidas como de inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em estrofes sobre os olhos piscados para despregar a remela da perplexidade, Jamesson e Tarsilla situam os poemas ao contexto das crises pol\u00edticas brasileiras, \u00e0s turbul\u00eancias sociais, a pol\u00edtica da morte na qual agarra-se o bolsonarismo e seus militares saudosos dos calabou\u00e7os e por\u00f5es da ditadura, ao conhecimento do amor na carne, \u201cnenhuma estrutura de vidro\/ suposta prote\u00e7\u00e3o\/ ficar\u00e1 inteira\/ quando eu chupar seu pau\u201d, vixe, diz o eu-l\u00edrico no terceiro poema de \u201c(dois) Amor\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Na revolu\u00e7\u00e3o do tes\u00e3o encontra-se outra l\u00edngua, \u201ceu s\u00f3 tiraria a m\u00e1scara para lamber sua buceta e s\u00f3 a colocaria de novo pra sair contigo \u00e0 rua\u201d, como se \u00e0s m\u00e1quinas fossem dadas a fazer quanto \u00e0 humanidade no t\u00eate-\u00e0-t\u00eate do que \u00e9 poss\u00edvel \u00e0 humanidade: os poemas, sem trazer a si a m\u00e1xima de que as m\u00e1quinas maldosas aos seres humanos, percorrem tens\u00f5es e n\u00e3o tens\u00f5es entre ci\u00eancia, tecnologia, hist\u00f3ria, conjuntura pol\u00edtica (\u201co n\u00e3o que consenti\/ o molotov que n\u00e3o joguei\u201d) e mitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse momento, o leitor vai esbarrar em declara\u00e7\u00f5es, indaga\u00e7\u00f5es, reflex\u00f5es e cr\u00f4nicas que se relacionam com o presente numa simbiose com passados conhecidos e perspectivas para o futuro que se formam entre um verso e outro, uma estrofe e outra, mas sempre respirando o lirismo de uma m\u00e1quina que n\u00e3o pode chorar enquanto corta ou pica cebola, por exemplo. Afinal, como nos dizem Jamesson e Tarsilla, uma m\u00e1quina n\u00e3o atenta, escuta, nem tem direitos, h\u00e1 \u00e9ticas e \u00e9ticas como h\u00e1 chips e chips.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou, se a vida fosse de fato um conto de fadas, para referenciar \u201cSonhar o Passado\u201d, \u201ccontar\u00edamos \u00e0s nossas crian\u00e7as que a madrasta, arrependida de ter pedido o cora\u00e7\u00e3o de branca-de-neve, encontrou seu final feliz no gesto permanente de vestir os amantes com as roupas da enteada pra sempre-sempre perdida? \u201cM\u00e1quinas prendem seres humanos achando que protegem os seres humanos \u2013 isso elas podem, devem?\u201d, reflete o eu-l\u00edrico, anunciando que a morte tem suas maneiras naturais e nem precisa de aux\u00edlio ou empurr\u00e3o: a morte, de fato, tem olhos muito atentos \u00e0s necessidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Professores da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG), Tarsilla Couto de Brito e Jamesson Buarque despertam a aten\u00e7\u00e3o do leitor para que, de mar\u00e7o a mar\u00e7o, 2020 e 2021, a covid-19 ceifou mais vidas que o HIV e ainda, como fruto do neoliberalismo selvagem, em sua faceta de necropol\u00edtica, mais fome de morte nutrindo \u201cgentchy faminta, se podem matar 12, podem matar mias, podem matar 24 e podem matar 3000 e tantas, e uma n\u00e3o-pol\u00edtica s\u00f3 matou mais de 300.000\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Hist\u00f3ria, tecnologia, ci\u00eancia, amor, morte, vida, tes\u00e3o, foda e l\u00ednguas se misturam a vis\u00edvel preocupa\u00e7\u00e3o dos poetas de mostrar, a partir da revolta da linguagem, elemento pr\u00f3prio da poesia, que o abismo no qual o pa\u00eds se encontra gera ang\u00fastia, mal-estar de uma civiliza\u00e7\u00e3o forjada sob a \u00e9tica do sangue e da peste. \u201cCoisas Que M\u00e1quinas N\u00e3o Podem Fazer\u201d ser\u00e1 lan\u00e7ada nesta quarta-feira, 24, das 17h30 \u00e0s 20h30, no Muquifu Cultural, na Rua do Lazer, a 8, no Centr\u00e3o de Goi\u00e2nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Confira a \u00edntegra, a seguir, entrevista que o professor Jamesson Buarque concedeu ao\u00a0<strong>Di\u00e1rio da Manh\u00e3:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Di\u00e1rio da Manh\u00e3 \u2013<\/strong>&nbsp;<strong>Quais s\u00e3o as coisas que as m\u00e1quinas s\u00e3o podem fazer?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e1quinas n\u00e3o podem chorar enquanto cortam ou picam cebola. Um\/a rob\u00f4 dom\u00e9stico\/a poderia liberar flu\u00eddos que nem l\u00e1grimas, decerto, n\u00e3o devido ao efeito \u00e1cido da cebola, e se sabe l\u00e1 por que algu\u00e9m fabricaria tal m\u00e1quina.\u00a0 M\u00e1quinas n\u00e3o podem chorar, n\u00e3o podem amar, n\u00e3o movem revolu\u00e7\u00f5es. M\u00e1quinas n\u00e3o podem manipular pessoas. Tudo ao contr\u00e1rio disso que h\u00e1 em fic\u00e7\u00e3o implica, por alegoria, condutas humanas. S\u00e3o coisas que gente faz ou faria e que s\u00e3o transferidas pras m\u00e1quinas na fic\u00e7\u00e3o. M\u00e1quinas n\u00e3o podem mostrar \u00e0 humanidade quem essa \u00e9, a humanidade fabrica m\u00e1quinas e termina mostrando a si mesma quem \u00e9. Se a uma m\u00e1quina fosse dada a quest\u00e3o sobre amar o passado, tal m\u00e1quina agir \u00e0 maneira duma pessoa de orienta\u00e7\u00e3o idealista, como Benedetto Croce, dizendo, conforme esse disse, que o passado n\u00e3o pode ser amado porque n\u00e3o existe, que \u00e9 um modo ideal-l\u00f3gico de pensar o passado. Diante duma quest\u00e3o sobre o futuro, a m\u00e1quina teria de desejar o futuro, mas n\u00e3o pessoas que desejam o futuro, n\u00e3o m\u00e1quinas. Gente se vicia em m\u00e1quinas, logo, gente faz m\u00e1quina pra consumo, e o consumo pode causar v\u00edcio. M\u00e1quinas n\u00e3o podem ser gente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>DM \u2013 No poema \u201cSonhar o Passado\u201d, na primeira estrofe, vemos uma imagem interessante: m\u00e1quinas trabalhando em prol da renda universal, com corpos livres e o \u00f3cio democraticamente distribu\u00eddo. Por que isso seria uma utopia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jamesson Buarque \u2013<\/strong>&nbsp;N\u00e3o \u00e9 uma utopia, \u00e9 uma distopia. H\u00e1 nesse movimento, o (1), de \u201cSonhar o passado\u201d, um jogo ir\u00f4nico sobre a utopia, comumente dada como algo que diz respeito a um ideal de perfei\u00e7\u00e3o, um modo de vida perfeito, uma sociedade perfeita, com tudo bem unit\u00e1rio. Pra algo assim se realizar, \u00e9 preciso considerar uma distopia. Somente um fascismo muito poderoso, bastante totalit\u00e1rio, com muita investida autorit\u00e1ria, coisa que se d\u00e1 por opress\u00e3o e repress\u00e3o, formaria realmente uma utopia. Assim, conforme o movimento (1) de \u201cSonhar o passado\u201d, restar\u00edamos em \u201ccorpos pesados e mudos e\/ algumas poucas pessoas reescrevendo o passado\/\/ pra que esque\u00e7amos\/ como e quando nos tornamos mec\u00e2nicos vazios in\u00fateis incapazes de sonhar\u201d. Observe: \u201calgumas poucas pessoas reescrevendo o passado\u201d, e se leia: ditando-o doutra forma, conforme o molde ut\u00f3pico almejado. Pra isso, fascismos existem, e o governo federal brasileiro atual serve de exemplo. Se uma pol\u00edtica tal, com o tempo, lograsse \u00eaxito, o resultado ut\u00f3pico que atingiria seria tal pra um nicho da sociedade, logo, pra uma utopia acontecer, ter\u00edamos a maioria da sociedade v\u00edtima duma distopia. Incapacidade de sonhar seria um resultado. Quem ainda com vida num futuro em que ser\u00edamos incapazes de sonhar estaria numa distopia, n\u00e3o numa utopia, porque nesta estaria apenas a gente fascista, num caso de \u00eaxito dessa gente. Retomando a quest\u00e3o anterior, conv\u00e9m acrescentar que m\u00e1quinas n\u00e3o podem sonhar, ent\u00e3o, as pessoas atendidas por uma utopia, eis parte da ironia, restariam que nem m\u00e1quinas, logo, seriam somente pessoas aquelas pras quais tal futuro seria dist\u00f3pico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>DM<\/strong>&nbsp;<strong>\u2013 Na sequ\u00eancia, o eu-l\u00edrico diz que \u201cas m\u00e1quinas n\u00e3o podem acordar com o cheiro do caf\u00e9 que minha m\u00e3e fazia\u201d. Como elas, as m\u00e1quinas, est\u00e3o substituindo lembran\u00e7as afetivas, cheiros da inf\u00e2ncia e a beleza em coisas aparentemente pequenas da vida?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jamesson \u2013<\/strong>&nbsp;N\u00e3o vislumbramos m\u00e1quinas substituindo gente. Fascistas vislumbram manipular m\u00e1quinas pra exterminar pessoas, inclusive, agem a servi\u00e7o disso, enquanto tamb\u00e9m vislumbram um mundo com gente que nem m\u00e1quinas, incapazes de sonhar, incapazes \u2013 conforme a eu l\u00edrica do movimento (2) de \u201cSonhar o passado\u201d diz sobre se pegar \u201cem d\u00favida se tudo o que vivi at\u00e9 aqui foi um sonho e se\/ de fato ainda tenho oito anos acordando com minha m\u00e3e fazendo caf\u00e9\u201d. Em tempo, mais algo pra primeira quest\u00e3o e pra todas: uma m\u00e1quina n\u00e3o tem d\u00favida. Enfim, n\u00e3o vislumbramos nada daquilo. N\u00e3o somos fascistas. Somos antifascistas.&nbsp;<em>Coisas que m\u00e1quinas n\u00e3o podem fazer<\/em>&nbsp;\u00e9 um livro antifascista. M\u00e1quinas n\u00e3o est\u00e3o, portanto, substituindo gente quando \u00e0s lembran\u00e7as afetivas, cheiros da inf\u00e2ncia etc. M\u00e1quinas podem servir a tais lembran\u00e7as, cheiros etc. Uma m\u00e1quina, inclusive, pode ser um objeto de afeto, mas as m\u00e1quinas \u2013 outra coisa a acrescentar, de certo modo j\u00e1 dito, a respeito de amar \u2013 n\u00e3o t\u00eam, n\u00e3o sentem afeto. H\u00e1, \u00e9 fato, pol\u00edticas de fazer com que pessoas considerem fazendo o que fazem, como h\u00e1 o desemprego de pessoas devido ao emprego de m\u00e1quinas, mas isso \u00e9 uma pol\u00edtica de miserabilidade, que por princ\u00edpio deixa de formar pessoas pra exercerem uns tantos trabalhos em paralelo ao trabalho exercido por m\u00e1quinas. A causa da miserabilidade \u00e9 inerente ao capitalismo, com \u00eanfase sobre as sociedades colonizadas. Por si, por decis\u00e3o pr\u00f3pria, por auto-opera\u00e7\u00e3o \u2013 eis mais algo a dizer da primeira quest\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a esta e \u00e0s demais \u2013, m\u00e1quinas n\u00e3o causam mis\u00e9ria, n\u00e3o causam memoric\u00eddio, etnoc\u00eddio nem genoc\u00eddio, s\u00e3o movidas por um tanto pouco de gente contra um tanto bastante gente a causarem tudo isso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>DM \u2013 Podemos afirmar que o poema deserdou da p\u00e1gina como um cigarro um caf\u00e9 quente? Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jamesson \u2013<\/strong>\u00a0Acontece nesse caso, correspondente ao movimento (4) de \u201cSonhar o passado\u201d, que a vida narrada \u00e9 pouco narrada, conforme \u00e9 dito que \u201ca vida narra\u201d \u201cn\u00e3o passou duma arte da brevidade\u201d. Conv\u00e9m enfatizar, ainda que noutros termos dos termos j\u00e1 dados, que h\u00e1 na hist\u00f3ria \u2013 com a aristocracia e a burguesia na reg\u00eancia juntamente com mais poderes \u2013 um contar tirando um tanto gigante que importava, mas que importava pra muita gente, que n\u00e3o \u00e9 a gente que faz a abla\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a gente que tira, que apaga e silencia, causando memoric\u00eddio, etnoc\u00eddio e genoc\u00eddio. No movimento (4) de \u201cSonhar o passado\u201d, a imagem \u201ccomo o poema que deserdou da p\u00e1gina um cigarro um caf\u00e9 quente\u201d implica a vida conforme narrada, pela compara\u00e7\u00e3o dada, afinal, um poema dado a deserdar um cigarro, um caf\u00e9 quente, dado a deserdar, a exemplo disto e daquilo, seja l\u00e1 o que for, \u00e9 algo que se diz excluindo muito do que lhe foi pertinente a existir. \u00c9 comumente dito que poemas resultam dum impulso pessoal vindo se sabe l\u00e1 donde ou que resultam meramente dum trabalho t\u00e9cnico. Aquilo e isto, nos dizeres mais recorrentes, meio que formam a feitura de poemas numa gangorra ou cabo de for\u00e7a de disputa entre o impulso e o trabalho t\u00e9cnico. Nisso, quem faz o poema resta como uma figura iluminada, se sabe l\u00e1 por qual ordem, ou numa figura maquinal. Dores, ang\u00fastias, desesperos, depress\u00f5es, raivas, al\u00edvios, esperan\u00e7as, \u00e2nimos, complac\u00eancias e o mais poss\u00edvel de viver, como a resist\u00eancia s\u00e3o um todo suprimido, que suprime a pessoa, que \u00e9 suprimir toda uma exist\u00eancia social, que \u00e9 suprimir muitas realidades sociais. Eis como a vida \u00e9 narrada. Coisa que se m\u00e1quinas pudessem fazer, mas n\u00e3o podem, seria, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, diferente, afinal, pela Lei Zero de Isaac Asimov, m\u00e1quinas n\u00e3o podem causar mal \u00e0 humanidade nem por omiss\u00e3o permitir que a humanidade sofra algum mal. Apagar ou silenciar mem\u00f3rias, etnias e, num todo, vidas, s\u00e3o coisas \u2013 conv\u00e9m acrescentar \u2013 que m\u00e1quinas n\u00e3o podem fazer, mas gente faz.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>DM \u2013 Num sentido figurativo, qual seria a import\u00e2ncia de jogar um molotov que n\u00e3o foi jogado?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jamesson \u2013<\/strong>&nbsp;Um molotov apagado jogado \u00e9 caso incluso no prop\u00f3sito de jogar um molotov. Pra antes de estar apagado, o molotov esteve aceso. O molotov j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o mesmo, uma vez apagado, mas o prop\u00f3sito de jogar o molotov, estando apagado ou aceso, ainda \u00e9 o mesmo. Isso inclui o ato de enfrentamento, que \u00e9 um ato de resist\u00eancia, de quem joga um molotov, que inclui a pessoa que joga o molotov e todo o conjunto social do qual a pessoa \u00e9 integrante e, logo, ao qual \u00e9 inerente. Conta o pr\u00f3prio corpo, e um corpo n\u00e3o \u00e9 uma unidade limitada em si, n\u00e3o \u00e9 uma individualidade disputando individualidade no conjunto da vida. Um corpo \u00e9 a vida de algu\u00e9m, e a vida de algu\u00e9m \u00e9 a hist\u00f3ria da pessoa com ascend\u00eancia, com tudo que a pessoa \u00e9 e pode vir a ser em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s vidas a ela coet\u00e2neas e contempor\u00e2neas e \u00e0s vidas que a precedem na hist\u00f3ria. O corpo \u00e9 uma classe. Um corpo \u00e9 uma identidade. Um corpo \u00e9 uma comunidade. H\u00e1 muita vida vivendo e j\u00e1 vivida sincr\u00f4nica e diacronicamente \u00e0 vida dum corpo. Quem joga um molotov se n\u00e3o concerne a apenas o ato de jogar o molotov, se concerne a tudo a respeito dum processo revolucion\u00e1rio, dum movimento de resist\u00eancia, incluindo consigo, por classe, por identidade e por mais que lhe diga respeito, revolu\u00e7\u00f5es e, logo, resist\u00eancias ancestrais \u00e0quilo que participa. Quem joga um molotov, mesmo j\u00e1 apagado, \u00e9 algu\u00e9m muit\u00edssimo inerente \u00e0 realidade a transformar. O molotov apagado \u00e9 o molotov que n\u00e3o foi jogado.<\/p>\n\n\n\n<p>A busca pelo n\u00e3o feito pra faz\u00ea-lo agora importa pra que o corpo se constitua de mais a mais em sua hist\u00f3ria, pra que lide com o n\u00e3o consentido a fim de consenti-lo, de realiz\u00e1-lo, afinal, as opress\u00f5es continuam, as repress\u00f5es seguem atuando, e assim o corpo inerente a necessariamente resistir pode muito bem superar a resist\u00eancia \u00e0 qual, num tempo, n\u00e3o se engajou, pra ent\u00e3o se engajar. No processo de forma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que move \u00e0s resist\u00eancias, o corpo que n\u00e3o sabia, que mal sabia ou que pouco sabia de si, segue no tempo tomando consci\u00eancia de si, que tomar consci\u00eancia dos corpos aos quais \u00e9 inerente. Assim, importa muito a quem, por qualquer motivo, n\u00e3o se consentiu a um ato revolucion\u00e1rio, se conciliar consigo na hist\u00f3ria pra um ato revolucion\u00e1rio. Isso se d\u00e1, de exemplo, como \u00e9 o caso da quest\u00e3o o movimento (6) de \u201cSonhar o passado\u201d, ao algu\u00e9m tomar consci\u00eancia de que \u201co tempo n\u00e3o me esquece\u201d, tomando consci\u00eancia de que o tempo \u201cdissimula destinos\/ brinca de lineariedades\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>DM<\/strong>&nbsp;<strong>\u2013 \u00c9 poss\u00edvel notar ainda uma maneira atrativa de se falar sobre amor. Em tempos reacion\u00e1rios, onde pr\u00e1ticas de \u00f3dio imperem, o que \u00e9 (dois) amor?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jamesson \u2013<\/strong>&nbsp;Resistir \u00e9 ato de amor. De exemplo, o autoconhecimento da sexualidade que h\u00e1 numa pessoa, quando essa sexualidade \u00e9 oprimida, \u00e9 um ato de amor, e o \u00e9 n\u00e3o somente a si, mas tamb\u00e9m a toda uma comunidade de contexto mesmo ou similar. A devo\u00e7\u00e3o a algu\u00e9m \u00e9, a rigor, devo\u00e7\u00e3o a algu\u00e9m, mas tal \u00e9 movida a ser chamada de amor. Que devo\u00e7\u00e3o seja pareada com amor, v\u00e1 l\u00e1, mas que redunde em dizer do amor, \u00e9 obra de opress\u00e3o pra reprimir pessoas mediante uma restrita concep\u00e7\u00e3o de amor. Noutro exemplo, cada poema LGBT+ que d\u00e1 a saber, que mostra, que enfatiza, que milita por tal realidade, \u00e9 um poema de amor, e s\u00e3o poemas de amor todos os poemas constitu\u00eddos em exprimir contra opress\u00f5es e repress\u00f5es. Distinguindo popula\u00e7\u00e3o de comunidade, a considerar que popula\u00e7\u00e3o inclui toda gente humana, inclusive fascistas, bem como toda gente rica exploradora da mis\u00e9ria \u2013 \u00e9 de ver a quantidade de gente bilion\u00e1ria a mais no mundo durante o horror da pandemia de Covid-19 \u2013, e a considerar comunidade a gigante parcela da popula\u00e7\u00e3o que resta, em diversos modos, sob opress\u00e3o e repress\u00e3o,&nbsp;<em>Coisas que m\u00e1quinas n\u00e3o podem fazer<\/em>&nbsp;\u00e9 um livro de amor \u00e0 comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Pra n\u00f3s, em tempos sombrios, tempos reacion\u00e1rios, o amor \u00e9 resistir, \u00e9 enfrentar. No livro, n\u00e3o se deixa com isso, de considerar que uma pessoa ame outra, que pessoas formem casais, inclusive, que formem coletividades de amor numa rela\u00e7\u00e3o m\u00fatua de intimidades, considerando as tantas intimidades que existam. Em mais um exemplo, amamos as pessoas pobres, n\u00e3o amamos a pobreza, afinal, amar a pobreza daria em, no m\u00ednimo, respeito a riqueza, que n\u00e3o respeitamos. Por sua vez, amar as pessoas pobres n\u00e3o \u00e9, em poesia, d\u00e1 voz a elas, pois quem tenta ou busca dar voz a pessoas, apenas garante que pessoas sem voz continuem silenciadas. Amar as pessoas pobres \u00e9 dizer delas, e circular poemas que dizem disso, pode agu\u00e7ar as pessoas pobres \u00e0 fala, a constituir a voz que t\u00eam pra que resistam, quando isso implica em se mobilizarem \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o a se manterem vivas enquanto s\u00e3o massacradas. No sentido disso tudo, apostamos, e apostando, militamos, que o amor, conforme dito, deve ser mais assumido em tempos reacion\u00e1rios. O contr\u00e1rio ser\u00e1 n\u00e3o atuar por amor, mas servir a uma concep\u00e7\u00e3o de amor, anulando as demais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>DM \u2013 Como nasceu a ideia de construir a obra a quatro m\u00e3os?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jamesson \u2013<\/strong>&nbsp;Fal\u00e1vamos em escrever nos juntando tem um tempo. Em data\u00e7\u00e3o, isso pode vir de 2013 ou de 2016. Num caso e noutro, politicamente, 2013 deu em 2016. Aquele ano das Jornadas formou coletivos no Brasil, e este ano, das Ocupa\u00e7\u00f5es, exprimiu o resultado dos coletivos formados. Tudo se deu de modo inerente a como entre 2013 e 2016 a pol\u00edtica foi sendo maquina no pa\u00eds, at\u00e9 descambar em 2018 e ent\u00e3o resultar numa ascens\u00e3o do fascismo. As manifesta\u00e7\u00f5es entre 2013 e 2016, que foram constituindo movimentos, que forma constituindo coletivos, terminaram servindo \u00e0 maquina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do impeachment e da arregimenta\u00e7\u00e3o de for\u00e7as fascistas pra ocupa\u00e7\u00e3o do governo federal. Calham a todos os interst\u00edcios envolvidos entre 2013 e 2018 v\u00e1rias conjunturas a serem analisadas, mas que pontuar uma a uma aqui, al\u00e9m de delongar a resposta, poderia levar a um distanciamento da quest\u00e3o. Fizemos, em diversos momentos, umas tantas an\u00e1lises, conversamos bastante a respeito. T\u00ednhamos, cada qual conforme uma orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, um tanto de considera\u00e7\u00f5es comuns, de perspectivas comuns, todas sempre com a comunidade em vista, com a liberdade de express\u00e3o em vista, com uma compreens\u00e3o muito parente sobre as diversidades, que devem atuar pra garantia de sua exist\u00eancia, e logo, de sua perman\u00eancia, e isso devidamente como s\u00e3o, sem serem subsumidas. T\u00ednhamos, e a bem da verdade, sempre tivemos, uma forma\u00e7\u00e3o intelectual e art\u00edstica parente, logo, tamb\u00e9m t\u00ednhamos, como tamb\u00e9m sempre tivemos, grande afinidade est\u00e9tica. Tudo j\u00e1 d\u00e1, caso se queira, conforme quisemos, numa possibilidade de cumprir a realiza\u00e7\u00e3o dum trabalho po\u00e9tico a quatro m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em><strong>\u201cResistir \u00e9 ato de amor. De exemplo, o autoconhecimento da sexualidade que h\u00e1 numa pessoa, quando essa sexualidade \u00e9 oprimida, \u00e9 um ato de amor, e o \u00e9 n\u00e3o somente a si, mas tamb\u00e9m a toda uma comunidade de contexto mesmo ou similar\u201d<\/strong><\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Se deu que a Tarsilla andava envolvida no trabalho de produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica j\u00e1 pensado por ela no que deu no t\u00edtulo do livro,&nbsp;<em>Coisas que m\u00e1quinas n\u00e3o podem fazer<\/em>. Do di\u00e1logo que t\u00ednhamos, e do qual n\u00e3o nos perdemos, mesmo \u00e0 dist\u00e2ncia devido ao necess\u00e1rio isolamento no contexto da pandemia de Covid-19, Tarsilla conversou com Jamesson sobre a possibilidade de tocar o trabalho de&nbsp;<em>Coisas que m\u00e1quinas n\u00e3o podem fazer<\/em>&nbsp;a quatro m\u00e3os. De tudo dito sobre a afinidade, e isto nem \u00e9 estranho dado o que se disse, Jamesson tinha poemas que calhavam ao caso. O passo seguinte era a jun\u00e7\u00e3o, que devido \u00e0 afinidade, nem seria dif\u00edcil, como n\u00e3o foi. Salvo engano, tudo se resolveu num m\u00eas, mas \u00e9 de observar que um m\u00eas responsivo \u00e0 afinidade, logo, responsivo a muito de hist\u00f3ria comum, a muito de conversas pra l\u00e1 de bem afinadas, sobretudo, a uma amizade indel\u00e9vel. Todo livro a quatro m\u00e3os, pelo menos em nossa concep\u00e7\u00e3o, carece duma grande amizade, e esta entrevista \u00e9 importante pra n\u00f3s a fim de que a vida narrada tenha bastante da gente em jun\u00e7\u00e3o no que deu em&nbsp;<em>Coisas que m\u00e1quinas n\u00e3o podem fazer<\/em>, muito embora, pra evitar resposta que n\u00e3o chegue a termo, bastante de tudo fique pra outras conversas. A princ\u00edpio, o modelo de trabalho era at\u00e9 simples, pois bastava juntar tudo selecionado por duas m\u00e3os com tudo selecionado pelas demais duas m\u00e3os. E se deu isso. O passo seguinte foi a afina\u00e7\u00e3o, correspondente a ajustar escritos dum par de m\u00e3os pra escritos doutro par de m\u00e3os. Essa foi a fase da interfer\u00eancia m\u00fatua sobre ambas a produ\u00e7\u00f5es. Vislumbr\u00e1vamos que nada daria, como n\u00e3o deu, em embate, logo, nada daria em disputa de protagonismo. Assim, houve interfer\u00eancia de passagens de escrita nos poemas de ambas as m\u00e3os, houve sugest\u00e3o de t\u00edtulo das partes, da organiza\u00e7\u00e3o do que vem em que ordem na disposi\u00e7\u00e3o de tudo no livro, e isso deu na distribui\u00e7\u00e3o das quatro partes, que terminou dando na inser\u00e7\u00e3o dum poema pr\u00e9vio \u00e0s duas primeiras partes, noutro pr\u00e9vio as duas \u00faltimas partes e num poema final.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora mais, como no caso desses tr\u00eas poemas, e ora menos, como no caso dos poemas de cada uma das quatro partes, as m\u00e3os participavam. Se deu que o ora mais e o ora menos deixou de contar, afinal, havia as quatro m\u00e3os em tudo, inclusive, se houvesse apenas na disposi\u00e7\u00e3o dos poemas, mas n\u00e3o foi o caso, j\u00e1 seria muito de intera\u00e7\u00e3o. Tudo, \u00e9 bom ressalvar, em respeito ao devido isolamento, ou seja, \u00e0 dist\u00e2ncia. Coisa que nos afetava por n\u00e3o permitir encontros pessoais, mas n\u00e3o nos afetava de impedir nada porque a amizade \u00e9 mais potente. E amizade, conv\u00e9m enfatizar, somente se mant\u00e9m mediante o amor, do qual j\u00e1 foi falado. Conv\u00e9m tamb\u00e9m dizer que quem nos conhece saber\u00e1, lendo livro, onde as m\u00e3os de quem esteve mais presente, como saber\u00e1 que o todo final decorreu da afinidade, e n\u00e3o duma parti\u00e7\u00e3o de X pra l\u00e1 e Y pra c\u00e1. Se n\u00e3o exist\u00edssemos dos corpos que somos sabendo, numa medida bastante razo\u00e1vel, dos corpos que viemos, n\u00e3o ter\u00edamos nos encontrado pra feitura do livro, at\u00e9 porque, n\u00e3o ter\u00edamos nos encontrado pra amizade que temos. Nossa amizade, importa enfatizar, al\u00e9m do encontro pessoal, inclui um encontro de comunalidade, logo, nossa hist\u00f3ria nos une porque nos demos, cada qual, a observar sem dispersar a aten\u00e7\u00e3o de nossa hist\u00f3ria. \u00c9 de julgar disso que pessoas que escrevem e t\u00eam encontro pelo menos semelhante poderiam se dar ao trabalho de escrever a quatro e at\u00e9 a mais m\u00e3os, afinal, se n\u00e3o disputarmos protagonismo, se n\u00e3o formos personalistas, historiais que s\u00e3o nossos corpos, com tudo que h\u00e1 de classe e de identidade neles, al\u00e9m do mais que houver, o encontro est\u00e1 dado, basta n\u00e3o meramente apostar nele, mas confiar nele. Confiamos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Coisas Que M\u00e1quinas N\u00e3o Podem Fazer<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Autores:<\/strong>&nbsp;Jamesson Buarque e Tarsilla Couto de Brito<\/p>\n\n\n\n<p><strong>G\u00eanero:<\/strong>&nbsp;Poes\u00eda<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Editora:<\/strong>&nbsp;Caravana<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pre\u00e7o:<\/strong>\u00a0R$ 40, 90<\/p>\n\n\n\n<p>fonte: <a href=\"https:\/\/www.dm.com.br\/cultura\/2021\/11\/poetas-versam-sobre-possibilidades-de-futuro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/www.dm.com.br\/cultura\/2021\/11\/poetas-versam-sobre-possibilidades-de-futuro\/ <\/a><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em estrofes sobre os olhos piscados para despregar a remela da perplexidade, Jamesson e Tarsilla situam os poemas ao contexto das crises pol\u00edticas brasileiras. 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