{"id":1118021,"date":"2026-09-23T09:03:51","date_gmt":"2026-09-23T12:03:51","guid":{"rendered":"https:\/\/caravanagrupoeditorial.com\/?p=1118021"},"modified":"2026-09-23T09:03:52","modified_gmt":"2026-09-23T12:03:52","slug":"mui-triste-e-ser-latino-americana-lima-barreto-machado-isabel-allende-maria-firmina-borges-cortazar-rulfo-garcia-marquez-rosa-e-prada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/caravanagrupoeditorial.com\/es\/mui-triste-e-ser-latino-americana-lima-barreto-machado-isabel-allende-maria-firmina-borges-cortazar-rulfo-garcia-marquez-rosa-e-prada\/","title":{"rendered":"Mui triste \u00e9 ser latino-americana: Lima Barreto, Machado, Isabel Allende, Maria Firmina, Borges, Cort\u00e1zar, Rulfo, Garc\u00eda M\u00e1rquez, Rosa e Prada"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 uma tristeza que sopesa meu cora\u00e7\u00e3o desde minha tenra adolesc\u00eancia: a tristeza daquilo que a Am\u00e9rica Latina poderia ter sido \u2014 <em>e n\u00e3o o foi.<\/em> Acompanha-me o leitor nesta cr\u00f4nica que o explica:<\/p>\n\n<p>No almo\u00e7o, Taci se aproxima de minha mesa e sentamos juntas para comer. Estamos na segunda semana de agosto, e ela me pergunta sobre a Festa Liter\u00e1ria Internacional de Paraty \u2014 Tinha tanta vontade de participar um dia! \u2014 ap\u00f3s o convite para acompanhar-me no pr\u00f3ximo ano, ela, com voz meio embargada, meio t\u00edmida, adentra outro assunto: nestas f\u00e9rias, li <em>O Corti\u00e7o.<\/em> Por uma semana n\u00e3o consegui sentir outra coisa sen\u00e3o o peso que essa leitura me rendeu. Como a literatura daqui \u00e9 diferente da europeia, n\u00e3o? D\u00e1 uma tristeza, um n\u00f3 na garganta\u2026<\/p>\n\n<p>Eu n\u00e3o a pude desmentir. Esta confiss\u00e3o misturada com indaga\u00e7\u00e3o me transportava a tempos remotos, \u00e0 \u00e9poca dos meus 16 anos, quando tamb\u00e9m eu descobria esta mesma dor. Na adolesc\u00eancia, n\u00e3o me fartava de estudar Bol\u00edvar, Guevara, Fidel, Olga, Prestes, Mari\u00e1tegui etc. Meu maior sonho era a constru\u00e7\u00e3o de uma Am\u00e9rica Latina grande e independente, livre do cabresto colonizat\u00f3rio, que valorizasse suas culturas ind\u00edgenas e negras. Nunca me esque\u00e7o da felicidade que senti ao receber de presente um dicion\u00e1rio de tupi antigo de minha madrinha, e um livro sobre independ\u00eancia econ\u00f4mica latino-americana, a partir do eixo Brasil-Argentina, de uma colega de classe. Por muito tempo, semelhante a Policarpo Quaresma, lutei contra moinhos de vento e esforcei-me por manter viva esta resist\u00eancia quixotesca. Mas, <em>ai!<\/em>, pobre de mim!, pois era em meio a t\u00e3o intensa efervesc\u00eancia de estudos, idealiza\u00e7\u00f5es e engajamento pol\u00edtico que descobria que n\u00e3o poderia contornar a realidade de que mui triste \u00e9 ser latino-americana \u2014 <em>pois bem se sabe que todos aqueles que buscaram amar esta p\u00e1tria, encontraram nisso grande empecilho.<\/em> Um dos maiores exemplos de tal fen\u00f4meno erigiu Lima Barreto, na composi\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica de sua personagem Policarpo.<\/p>\n\n<p>Policarpo Quaresma, patriota inveterado, encontra seu primeiro impasse quando busca elevar o tupi \u00e0 l\u00edngua oficial do Brasil \u2014 chamado de louco, desperta raiva em seus opositores: pode algu\u00e9m buscar alguma mudan\u00e7a tendo o amor \u00e0 p\u00e1tria como \u00fanico fim? <em>Imposs\u00edvel!<\/em> <em>Busca ele outro ganho que ignoramos,<\/em> desconfiavam. Posteriormente, quando Policarpo percebe que n\u00e3o poder\u00e1 atuar na superestrutura da na\u00e7\u00e3o, volta-se para a agricultura, buscando desenvolver agrariamente o seu adorado pa\u00eds. E, aqui, v\u00eam \u00e0 tona duas particularidades da forma\u00e7\u00e3o brasileira: \u00e9 vis\u00edvel como n\u00e3o poucas personagens liter\u00e1rias que buscam o desenvolvimento da na\u00e7\u00e3o, <em>ou o seu pr\u00f3prio desenvolvimento via ascens\u00e3o de classe,<\/em> acabam desembocando na esfera rural \u2014 como \u00e9 o caso de Riobaldo, de <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>, que da jagun\u00e7agem ascende \u00e0 aristocracia agr\u00e1ria. A segunda particularidade \u00e9 que este desenvolvimento brasileiro conserva em si o escravagismo, como \u00e9 o caso tamb\u00e9m de Policarpo, amante da na\u00e7\u00e3o que luta por sua liberdade econ\u00f4mica e desenvolvimento, mas que em seu s\u00edtio Sossego mant\u00e9m Anast\u00e1cio, um preto velho que lhe serve mesmo ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura.<\/p>\n\n<p>Uma terceira particularidade da forma\u00e7\u00e3o brasileira e latino-americana, evidenciada tamb\u00e9m pelo g\u00eanio de Lima Barreto, \u00e9 a de que <em>nada \u00e9 est\u00e1vel na Am\u00e9rica Latina<\/em>: nossa organiza\u00e7\u00e3o se d\u00e1 pela instaura\u00e7\u00e3o de regimes ditatoriais intervalados. N\u00e3o \u00e0 toa a narrativa de Policarpo passa-se durante a ditadura de Floriano Peixoto e termina com Policarpo preso pol\u00edtico, retaliado ap\u00f3s tanto lutar por justi\u00e7a e planos desenvolvimentistas nacionais. Para adensar nossa prosa, relembremos uma conversa interessant\u00edssima \u00e0 maneira da jumenta de Bala\u00e3o, que se d\u00e1 entre dois burros na cr\u00f4nica de Machado \u201cOs bondes e os burros\u201d.<\/p>\n\n<p>Quando um burro, analisando o desenvolvimento ecom\u00f4mico da cidade do Rio, volta-se para outro burro e demonstra crer que a instaura\u00e7\u00e3o do bonde el\u00e9trico os salvaria da explora\u00e7\u00e3o e libertaria-os do servilismo, \u00e9 com muito cinismo que o outro lhe responde: \u201cO <em>bond<\/em> el\u00e9trico apenas nos far\u00e1 mudar de senhor. N\u00f3s somos bens da companhia. Quando tudo andar por arames, n\u00e3o somos mais precisos, vendem-nos. Passamos naturalmente \u00e0s carro\u00e7as\u201d. A despeito de quem vira em nossa forma\u00e7\u00e3o beleza e potencialidades, o g\u00eanio de Lima Barreto e Machado, dois escritores negros realistas, denunciou aquilo que, posteriormente, Florestan Fernandes explicaria em termos econ\u00f4micos:<\/p>\n\n<p>O Brasil, nascido do processo de expans\u00e3o que marca a passagem dos escombros da sociedade medieval europeia \u00e0 ascens\u00e3o da nova sociedade, surge como combina\u00e7\u00e3o de grandes planta\u00e7\u00f5es, trabalho escravo e expropria\u00e7\u00e3o colonial. A coloniza\u00e7\u00e3o erigiu-nos enquanto pa\u00eds de senhores rurais, e nossa independ\u00eancia n\u00e3o significou sen\u00e3o a ascens\u00e3o destes senhores rurais \u00e0 aristocracia agr\u00e1ria, num momento em que a Inglaterra tornava-se hegem\u00f4nica, encabe\u00e7ando o capitalismo globalmente. Do sistema colonial passamos ao neocolonial: uma transi\u00e7\u00e3o \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o legal de extra\u00e7\u00e3o de riquezas. Esta forma\u00e7\u00e3o enquanto pa\u00eds relegado a produtor de mercadorias tropicais nos impediu o desenvolvimento pleno enquanto na\u00e7\u00e3o. E este complexo movimento transicional Machado eternizou na imagem do burro que muda de senhor, diante do advento do bonde el\u00e9trico no Brasil, instaurado pela companhia estadunidense Botanical Garden Railroad \u00e0 \u00e9poca. E, se pelas m\u00e3os dos Estados Unidos pass\u00e1vamos \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o do bonde el\u00e9trico, pelas mesmas m\u00e3os passar\u00edamos ao financiamento de novas ditaduras na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n<p>Quem muito bem soube retratar a viol\u00eancia que \u00e9 se viver num pa\u00eds sob ditadura civil-militar foi o autor argentino Cort\u00e1zar. Em seu conto \u201cA Casa Tomada\u201d, dois irm\u00e3os, longe de tudo e de todos, vivem numa casa que, pouco a pouco, vai sendo tomada, <em>n\u00e3o se sabe por quem, n\u00e3o se sabe como.<\/em> A \u00fanica coisa que aprendem \u00e9 a adaptar-se e contentar-se cada vez com menos espa\u00e7o e menos liberdade dentro de sua pr\u00f3pria morada, diariamente furtada de si. Nesta trama, irm\u00e3o e irm\u00e3 vivem uma estranha rela\u00e7\u00e3o de interdepend\u00eancia e ares incestuosos, que muito nos lembra da rela\u00e7\u00e3o de Donis e sua irm\u00e3, personagens de <em>Pedro P\u00e1ramo<\/em>, romance do mexicano Juan Rulfo que inaugura o realismo m\u00e1gico na literatura.<\/p>\n\n<p>A persist\u00eancia de imagens de viol\u00eancia sexual, abusos e rela\u00e7\u00f5es incestuosas na literatura latino-americana n\u00e3o nos deixa esquecer a viol\u00eancia que \u00e9 passar <em>de senhor a senhor, de ditadura a ditadura, de coloniza\u00e7\u00e3o a neocolonialismo<\/em>. Ao retomar constantemente o simbolismo da viola\u00e7\u00e3o da veda\u00e7\u00e3o do incesto \u2014 lei que reconhecidamente inaugura a civiliza\u00e7\u00e3o \u2014, nossa literatura refor\u00e7a a Am\u00e9rica Latina enquanto <em>tirania dom\u00e9stica,<\/em> que n\u00e3o respeita sequer esta lei b\u00e1sica civilizat\u00f3ria e que, portanto, como poderia assegurar a dignidade humana de americanos que n\u00e3o sabem sen\u00e3o viver em regimes de explora\u00e7\u00e3o, coloniza\u00e7\u00e3o e ditaduras? Pois quem n\u00e3o chorou com a pequena Rem\u00e9dios em <em>Cem Anos de Solid\u00e3o,<\/em> do colombiano Garc\u00eda M\u00e1rquez, que morre extremamente jovem, por seu corpo ainda infantil n\u00e3o suportar a gravidez de g\u00eameos, ap\u00f3s o casamento for\u00e7ado com o Coronel Aureliano Buend\u00eda? E quem n\u00e3o experimentou enorme tristeza e n\u00e3o se compadeceu de cada mulher que era violada por Pedro P\u00e1ramo, no romance de Rulfo; e por Esteban Trueba, na <em>Casa dos Esp\u00edritos<\/em> de Isabel Allende \u2014 personagens que, desse modo, constitu\u00edam seu poder, patrim\u00f4nio e territ\u00f3rio? Pedro P\u00e1ramo, Riobaldo e Esteban Trueba, que compartilham das mesmas maneiras rudes e provincianas, s\u00e3o tr\u00eas personagens masculinas latino-americanas de origem humilde que ascendem de classe por meio do latif\u00fandio, do abuso de poder e do abuso de vulner\u00e1veis. E n\u00e3o \u00e9 exatamente buscando <em>anacronicamente<\/em> sustentar a organiza\u00e7\u00e3o patriarcal \u2014 esfacelada pelo capitalismo, que morto se arrasta em nossas terras latino-americanas \u2014 que se imp\u00f5e o abuso de crian\u00e7as, o estupro sistem\u00e1tico de mulheres, a escraviza\u00e7\u00e3o dos escravizados que migraram ao trabalho livre e a degrada\u00e7\u00e3o pelo incesto? E, por isso, meus caros leitores, n\u00e3o me parece exagero afirmar que a Am\u00e9rica Latina degrada-se na tristeza, localizada neste <em>n\u00e3o-lugar que se move atrav\u00e9s dos mortos<\/em>, tanto na literatura, quanto em nossa tr\u00e1gica realidade.<\/p>\n\n<p>Se Rulfo toma como pano de fundo de seu romance a particularidade da forma\u00e7\u00e3o mexicana no per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o capitalista; Isabel Allende, n\u2019<em>A<\/em> <em>Casa dos Esp\u00edritos<\/em>, explora a posi\u00e7\u00e3o do conservadorismo agr\u00e1rio no desenvolvimento capitalista latino-americano, que barra o desenvolvimento humano no apoio a ditaduras. O \u00e1pice desta posi\u00e7\u00e3o tosca \u00e9 ilustrado por Esteban Trueba, oligarca e senador pelo Partido Conservador que, servido em seu latif\u00fandio por \u201cescravos remunerados\u201d a gozar de impunidade, teme as ideias revolucion\u00e1rias de sua neta Alba, apelidadas por ele de \u201cideias bolchevistas\u201d, que conven\u00e7am os empregados de que merecem melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e sal\u00e1rio justo. Ao deparar com a personagem Esteban, que se assusta com o \u201ccheiro do comunismo\u201d na Am\u00e9rica, a elei\u00e7\u00e3o de um candidato comunista, a reforma agr\u00e1ria e a organiza\u00e7\u00e3o de sindicatos, e tamb\u00e9m com mulheres que se pintam, cortam os cabelos curt\u00edssimos, usam chap\u00e9u coco e lutam pelo sufr\u00e1gio universal, seria-nos poss\u00edvel n\u00e3o remeter \u00e0 Opera\u00e7\u00e3o Condor? Organiza\u00e7\u00e3o secreta dos E.U.A que promoveu repress\u00e3o pol\u00edtica e financiamento das ditaduras no Cone Sul, a servi\u00e7o de sufocar qualquer desenvolvimento humano, econ\u00f4mico e intelectual por c\u00e1 \u2014 <em>em curto e longo prazo<\/em>, cujos frutos da interdi\u00e7\u00e3o de nosso desenvolvimento colhemos at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n<p>E se restam d\u00favidas aos que me leem, por acaso, das hodiernas consequ\u00eancias do desenvolvimento latino-americano barrado, basta voltarem-se para a atual situa\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria mundial, fruto da divis\u00e3o social do trabalho: enquanto a U.E. caminha a passos largos na restri\u00e7\u00e3o do uso de agrot\u00f3xicos, o Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses cujo uso vem, a cada ano, tornando-se desenfreadamente legalizado, sendo utilizado em grande peso principalmente na pecu\u00e1ria. Embora a ci\u00eancia j\u00e1 tenha comprovado que \u00e9 poss\u00edvel produzir alimentos em larga escala utilizando nada, ou muito poucos agrot\u00f3xicos, seguimos ref\u00e9ns do uso de subst\u00e2ncias t\u00f3xicas que atacam nosso sistema nervoso e podem produzir malef\u00edcios no desenvolvimento infantil, desregula\u00e7\u00e3o hormonal, transtornos psiqui\u00e1tricos, c\u00e2ncer e doen\u00e7as neurol\u00f3gicas \u2014 <em>e assim retomamos a configura\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Brasil, que impede qualquer revolu\u00e7\u00e3o em prol de nosso pleno desenvolvimento.<\/em> N\u00e3o nos restam d\u00favidas de que o irracionalismo da produ\u00e7\u00e3o capitalista agropecu\u00e1ria impede nosso avan\u00e7o, posto que a ci\u00eancia j\u00e1 avan\u00e7ou, mas a valoriza\u00e7\u00e3o do valor impede que vivamos conforme a racionalidade da produ\u00e7\u00e3o da vida. N\u00e3o \u00e0 toa temos em <em>Dom Casmurro<\/em> uma configura\u00e7\u00e3o patriarcal que n\u00e3o se sustenta mas, finada, se arrasta \u2014 tendo por \u00fanico ato que a vivifica o sofrimento ressuscitado pelo sentimento, <em>tamb\u00e9m morto,<\/em> de posse; em <em>Pedro P\u00e1ramo,<\/em> vive um sistema morto de mortos que governam os vivos; em \u201cA Casa Tomada\u201d e <em>A Casa dos Esp\u00edritos,<\/em> a hist\u00f3ria de golpes na Am\u00e9rica Latina mant\u00e9m seus habitantes a trabalhar para criminosos; em <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas,<\/em> um jagun\u00e7o, cujo horizonte \u00e9 vir a ser aristocracia agr\u00e1ria no Brasil, tem sua paix\u00e3o encarnada em Diadorim, a personagem mais revolucion\u00e1ria do romance em quest\u00e3o, que se entrega \u00e0 morte no combate final em honra \u00e0 vida de seu pai morto.<\/p>\n\n<p>Maria Firmina dos Reis marcou \u00e9poca ao estrear como a primeira romancista negra da Am\u00e9rica Latina, com <em>\u00darsula<\/em>, em 1859: primeiro romance abolicionista do Brasil. \u00darsula, mo\u00e7a branca e livre, apaixona-se por Tancredo, com quem vive um amor sem medidas. Seu monstruoso tio, entretanto, que h\u00e1 muito matara o pai da sobrinha, ressurge quando \u00darsula \u00e9 j\u00e1 adulta. Obcecado por ela, persegue-a e impede seu casamento com o nobre Tancredo, ao mat\u00e1-lo. O tio comendador, ao gozar de poder ilimitado, a salvo de qualquer consequ\u00eancia, casa-se \u00e0 for\u00e7a com a sobrinha, que se torna louca diante de tanta desgra\u00e7a. A escritora Maria Firmina \u2014 filha bastarda tamb\u00e9m de um comendador, como aponta sua biografia \u2014, denunciou n\u00e3o apenas a delicada posi\u00e7\u00e3o feminina no Brasil, mas tamb\u00e9m a escravocrata. Em seu conto \u201cA escrava\u201d, uma m\u00e3e negra, fugida da casa de seu senhor, embrenha-se pela floresta e, ainda que encontre prote\u00e7\u00e3o, depara com a morte, j\u00e1 louca, por n\u00e3o conseguir aceitar a venda para o Rio de Janeiro de Carlos e Urbano, seus dois filhos de oito anos. A personagem escravizada morre amaldi\u00e7oando seus carrascos, ao lado do filho Gabriel.<\/p>\n\n<p>A partir da hero\u00edna \u00darsula, que experimenta a morte em vida, com um sorriso d\u00e9bil, enquanto afaga a invis\u00edvel sombra de seu falecido noivo e aperta flores secas do noivado contra o peito, a Am\u00e9rica Latina assume, nesta cr\u00f4nica, uma \u00faltima forma: a da noiva morta.<\/p>\n\n<p>As personagens Ism\u00eania, de <em>Triste fim de Policarpo Quaresma<\/em>; e Rosa, de <em>A Casa dos Esp\u00edritos,<\/em> compartilham um mesmo fim: ambas, esperando pelo noivo que adia h\u00e1 anos o cas\u00f3rio, morrem jovens, antes de poderem selar o enlace matrimonial. Ism\u00eania e Rosa s\u00e3o lamentadas e enterradas com as vestes brancas que usariam ao serem desposadas \u2014 o que, nos dois romances, \u00e9 retratado de maneira extremamente bela, sens\u00edvel, delicada e sublime. Este retrato da noiva morta lembra-nos ainda da <em>Ant\u00edgona<\/em> de S\u00f3focles, que, como rebento novo, morre lutando contra uma lei velha e caduca, antes de poder ser dada em casamento. A interessante figura da donzela que mal desabrochou para a paix\u00e3o e j\u00e1 experimentou a morte carrega em si tamb\u00e9m uma interessante contradi\u00e7\u00e3o na literatura latino-americana: nem Ism\u00eania nem Rosa faziam caso de seus casamentos \u2014 como tamb\u00e9m Diadorim, de <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>. Seus cora\u00e7\u00f5es, bem como o de Ant\u00edgona, estavam em outro lugar, um lugar muito mais interessante, voltado para lutas e discuss\u00f5es \u00e0 frente de suas \u00e9pocas: e, por isso, talvez, todas morram t\u00e3o cedo \u2014 pois sua verve n\u00e3o corresponde \u00e0 sua contemporaneidade.<\/p>\n\n<p>A Am\u00e9rica Latina \u00e9 triste e sua literatura n\u00e3o o esconde, pelo contr\u00e1rio, ela o reafirma. E \u00e9 por isso que lhes advirto, minhas caras irm\u00e3s, de que <em>mui triste \u00e9 ser latino-americana.<\/em> A produ\u00e7\u00e3o capitalista \u00e9 irracional e, portanto, apenas nos resta a organiza\u00e7\u00e3o racional da vida. O consumismo jamais foi um problema do capitalismo, mas, sim, a crise de subconsumo, visto que a organiza\u00e7\u00e3o deste modo de produ\u00e7\u00e3o, enquanto desenvolvimento org\u00e2nico do feudalismo, n\u00e3o se canaliza na distribui\u00e7\u00e3o social da produ\u00e7\u00e3o social que, j\u00e1 organizada em larga escala, \u00e9 capaz de alimentar e servir a todos do globo, que tudo produzem. Quem suporta ser um ser racional vivendo num modo de produ\u00e7\u00e3o irracional que, ao passo que produz riqueza, produz tamb\u00e9m mis\u00e9ria?<\/p>\n\n<p>N\u00e3o suponhamos, simploriamente, entretanto, que apenas a Latino-Am\u00e9rica \u00e9 triste, pois, em verdade, todo o globo \u00e9 triste, porquanto n\u00e3o h\u00e1 desenvolvimento integral enquanto houver subdesenvolvimento local. Nem os mais desenvolvidos pa\u00edses capitalistas da atualidade podem se gabar de serem livres, pois n\u00e3o o s\u00e3o. Em todo o globo h\u00e1 apenas seres mutilados, impedidos de se desenvolverem livre e plenamente, por conta de um sistema morto que se arrasta por todos os nossos poros e territ\u00f3rios conhecidos. A liberdade ser\u00e1 global, ou n\u00e3o ser\u00e1. E a correta compreens\u00e3o desta contradi\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica bem expressou Borges n\u2019\u201cO evangelho segundo Marcos\u201d.<\/p>\n\n<p>Neste conto, tudo muda quando um rapaz portenho, Baltasar Espinosa, filho de um livre-pensador e de uma m\u00e3e cat\u00f3lica, adentra a fazenda onde moram os Gutres e empe\u00e7a a ler o segundo evangelho a eles, descendentes da mesti\u00e7agem entre ind\u00edgenas e pe\u00f5es de terras altas da Esc\u00f3cia \u2014 que misturavam calvinismo a supersti\u00e7\u00f5es dos pampas e, como crian\u00e7as mantidas na sua eterna menoridade, vivem sob a tutela dos patr\u00f5es. Em determinado momento da leitura b\u00edblica, ocorre a Baltasar que havia, em verdade, duas hist\u00f3rias que sempre se repetiam: \u201cA de um barco perdido que busca nos mares mediterr\u00e2neos uma ilha amada e a de um deus que se faz crucificar no G\u00f3lgota\u201d. Ora, diante de tal pista, parece-nos imposs\u00edvel n\u00e3o inferir que, se a hist\u00f3ria europeia reconstr\u00f3i a primeira narrativa de viagem \u00e0 \u00cdtaca e descobrimento do Novo Mundo; a hist\u00f3ria latino-americana reconstr\u00f3i o sacrif\u00edcio e a entrega deste novo inocente mundo pela salva\u00e7\u00e3o da humanidade. <em>Em um polo, viagem e descoberta sublimes; no outro, a entrega de um corpo mortificado pelo desenvolvimento do resto do globo, onde o capitalismo j\u00e1 se v\u00ea avan\u00e7ado.<\/em> Estes dois p\u00f3los, interdependentes e indissoci\u00e1veis entre si, encontram a express\u00e3o final da interdi\u00e7\u00e3o de seu desenvolvimento enquanto linha particular quando, ap\u00f3s possuir a jovem mo\u00e7a Grute, que se entregara a Baltasar como cordeiro ao matadouro \u2014 <em>tremendo, sem nenhuma palavra sequer proferir<\/em> \u2014, Baltasar tem sua <em>siesta<\/em> interrompida por marteladas dos Grutes, que arranjavam vigas para constru\u00e7\u00e3o de sua cruz. Esta mesma tradi\u00e7\u00e3o, composta por duas linhas complementares \u2014 de descobrimento de um, e sacrif\u00edcio do outro \u2014, reafirma-se na obra <em>Mem\u00f3rias de minhas p. tristes<\/em>, de Garc\u00eda Marqu\u00e9z, em que uma simples garota de 14 anos, analfabeta e condenada a pregar bot\u00f5es incessantemente para sustentar sua fam\u00edlia rende-se \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o, como forma de complementar sua renda. Se, por um lado, o narrador, um jornalista de 90 anos, diz ter, enfim, descoberto o amor neste censur\u00e1vel encontro for\u00e7ado; por outro, da jovem mo\u00e7a prostitu\u00edda que se encontra sempre em estado de torpor, \u00e0 qual n\u00e3o \u00e9 atribu\u00eddo nenhum momento de lucidez ou fala consciente, diz-se que \u201c[&#8230;] dormia com os bra\u00e7os abertos em cruz\u201d quando encontrada por ele, ao passo que sua cafetina afirma que a menina \u201c[&#8230;] j\u00e1 estava instru\u00edda para o sacrif\u00edcio\u201d. Ademais, Rosa Cabarcas, assinalada como a \u201cdona\u201d da mo\u00e7a, chega a aconselhar o velho que com a garota se case, insinunado o casamento como prostitui\u00e7\u00e3o mais barata. Nesta obra em que a mulher latino-americana \u00e9 denunciada enquanto produto e posse ven\u00e1vel, lembramos o papel exercido tamb\u00e9m pela figura feminina em <em>Ang\u00fastia<\/em>, de Graciliano Ramos, e no poema \u201cPas\u00e1rgada\u201d, de Manuel Bandeira.<\/p>\n\n<p>Em <em>Cr\u00f4nica de uma morte anunciada<\/em>, tamb\u00e9m de Garc\u00eda M\u00e1rquez, este not\u00e1vel par dial\u00e9tico v\u00edtima-conquistador apresenta-se em novos contornos. Nela, \u00e9 narrada a morte de Santiago Nasar, um rapaz de origem \u00e1rabe, advindo de uma fam\u00edlia de posses, que abusa de Divina Flor, a filha de sua empregada, diariamente, como que por esporte. Tudo muda quando os irm\u00e3os Vicarios resolvem tirar sua vida de forma brutal, esquartejando-o e deixando em sua m\u00e3o um estigma de crucificado. O motivo \u00e9 a irm\u00e3 \u00c1ngela Vicario ser devolvida pelo marido Bayardo San Rom\u00e1n, poucas horas ap\u00f3s o casamento for\u00e7ado e, ao ser perguntada por quem fora deflorada, apontar o nome de Santiago. A cr\u00f4nica torna-se mais interessante quando aprofunda-se na psicologia das personagens, trazendo complexidade a cada uma delas, e aparta-se de uma an\u00e1lise simplista e superficial do acontecido. Passando pela confiss\u00e3o de diversos moradores das redondezas, a hist\u00f3ria que, a princ\u00edpio, parecia uma simples vingan\u00e7a por honra toma um novo contorno. \u00c1ngela deixa de ser uma v\u00edtima passiva do casamento for\u00e7ado com Bayardo quando, ap\u00f3s muitos anos longe dele, o v\u00ea de relance num espelho e come\u00e7a a assedi\u00e1-lo com o envio de quase duas mil cartas, dissimulando tristeza, saudade e amor, por dezessete anos ininterruptos, como forma de vingar-se de sua m\u00e3e e do marido pelo casamento ao qual fora obrigada aos 20 anos. A suposta a\u00e7\u00e3o de Santiago, nome indicado por \u00c1ngela, \u00e9 tamb\u00e9m posta em d\u00favida a partir do relato de v\u00e1rios vizinhos e familiares. Por fim, a cr\u00f4nica faz-nos saber que, em verdade, n\u00e3o h\u00e1 apenas uma, duas ou tr\u00eas v\u00edtimas nesta hist\u00f3ria, mas o que encontra o investigador doze dias ap\u00f3s o crime \u00e9 todo \u201c<em>um povo em carne viva\u201d.<\/em><\/p>\n\n<p>Outro forte exemplo dessa ambiguidade dial\u00e9tica se v\u00ea n\u2019<em>A Casa dos Esp\u00edritos,<\/em> em que <em>Clara, clar\u00edssima, clarividente<\/em>, personagem que unifica a trama neste romance de Isabel Allende, \u00e9 narrada desde a sua inf\u00e2ncia numa fam\u00edlia tradicional, passando por um casamento for\u00e7ado, tornando-se m\u00e3e, av\u00f3 e, por fim, decidindo partir deste plano. Clara, embora passe por um momento de mutismo volunt\u00e1rio quando jovem, anota tudo que julga interessante em seu <em>caderno de escrever a vida<\/em>. Esta pr\u00e1tica de tornar n\u00e3o s\u00f3 a mem\u00f3ria, mas a fantasia viva e acess\u00edvel por meio da escrita, ser\u00e1 retomada por sua neta Alba e o av\u00f4 Esteban Trueba que, j\u00e1 no fim de sua vida, arrependido por apoiar o golpe militar que lhe custou a vida de um filho, resolve narrar com a neta a hist\u00f3ria dessas tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es que, partindo de uma fam\u00edlia conservadora e repressora, vive a pecha de suas mulheres, a partir da segunda gera\u00e7\u00e3o, apaixonarem-se por homens pobres e revolucion\u00e1rios, comunistas inveterados que real\u00e7am os antagonismos de classe e suas fra\u00e7\u00f5es no latif\u00fandio dos Truebas.<\/p>\n\n<p>A conversa do almo\u00e7o terminou com Taci a me dizer que eu deveria ser uma alma muito antiga \u2014 pois como era poss\u00edvel a uma jovem mo\u00e7a n\u00e3o apenas tanto conhecimento, mas a compreens\u00e3o de tanta tristeza e sabedoria? Entendi, por fim, que se a uma alma antiga cabe honrar os seus mortos e lutar pela liberdade em respeito \u00e0queles que pavimentaram seu caminho, cabe-lhe tamb\u00e9m a explica\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria por meio de uma costura de est\u00f3rias, como o fizeram Clara e Alba ao dar cores, mem\u00f3ria e sentido \u00e0 ferida do golpe militar sofrido; como o faz Sherazade, que nina os nossos sonhos e o nosso sono. Nos versos do peruano Manuel Gonz\u00e1lez Prada, intelectual e militante que encabe\u00e7ou um projeto de uni\u00e3o entre vanguarda liter\u00e1ria, ind\u00edgenas e oper\u00e1rios insurretos, \u201cPassam anos, passam s\u00e9culos\/ passam eras e eras,\/ mas nunca mais do sonho\/ despertar\u00e3o os Gigantes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile\" style=\"grid-template-columns:44% auto\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"800\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/caravanagrupoeditorial.com\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Foto-da-autora-3.jpg?resize=800%2C800&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-1118023 size-full\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/caravanagrupoeditorial.com\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Foto-da-autora-3-scaled.jpg?resize=800%2C800&amp;ssl=1 800w, https:\/\/i0.wp.com\/caravanagrupoeditorial.com\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Foto-da-autora-3-scaled.jpg?resize=400%2C400&amp;ssl=1 400w, https:\/\/i0.wp.com\/caravanagrupoeditorial.com\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Foto-da-autora-3-scaled.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https:\/\/i0.wp.com\/caravanagrupoeditorial.com\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Foto-da-autora-3-scaled.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/caravanagrupoeditorial.com\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Foto-da-autora-3-scaled.jpg?resize=1536%2C1536&amp;ssl=1 1536w, https:\/\/i0.wp.com\/caravanagrupoeditorial.com\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Foto-da-autora-3-scaled.jpg?resize=2048%2C2048&amp;ssl=1 2048w, https:\/\/i0.wp.com\/caravanagrupoeditorial.com\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Foto-da-autora-3-scaled.jpg?resize=12%2C12&amp;ssl=1 12w, https:\/\/i0.wp.com\/caravanagrupoeditorial.com\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Foto-da-autora-3-scaled.jpg?resize=510%2C510&amp;ssl=1 510w, https:\/\/i0.wp.com\/caravanagrupoeditorial.com\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Foto-da-autora-3-scaled.jpg?resize=100%2C100&amp;ssl=1 100w, https:\/\/i0.wp.com\/caravanagrupoeditorial.com\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Foto-da-autora-3-scaled.jpg?resize=64%2C64&amp;ssl=1 64w, https:\/\/i0.wp.com\/caravanagrupoeditorial.com\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Foto-da-autora-3-scaled.jpg?w=2340&amp;ssl=1 2340w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p>Giancarla Francovig Peralta Ceravolo \u00e9 escritora e tradutora liter\u00e1ria. Graduada em letras portugu\u00eas e \u00e1rabe pela USP, \u00e9 mestra em educa\u00e7\u00e3o, linguagem e psicologia e doutoranda em cultura, filosofia e hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o pela mesma universidade. Foi medalhista de ouro em canto nas Olimp\u00edadas Internacionais de L\u00edngua e Cultura Turcas (Istambul, 2013). Dedica-se \u00e0 pesquisa da composi\u00e7\u00e3o po\u00e9tico-cat\u00e1rtica, da filosofia aristot\u00e9lica \u00e0 psicologia hist\u00f3rico-cultural.<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma tristeza que sopesa meu cora\u00e7\u00e3o desde minha tenra adolesc\u00eancia: a tristeza daquilo que a Am\u00e9rica Latina poderia ter sido \u2014 e n\u00e3o o foi. 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