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A LITERATURA DE ENTRETENIMENTO NO BRASIL 3

Hoje, a literatura de gênero ou de entretenimento está sendo produzida aqui no Brasil, por nós, autores brasileiros. No entanto, faz pouco tempo que esta literatura era trazida do exterior, traduzida e publicada por nossas editoras. Eram publicações sem risco, pois já chegavam com a crítica e o marketing prontos e eram vendidas às centenas, senão milhares. Qualquer aventura literária executada por autores nacionais neste sentido era ignorada pela crítica e pelas editoras.

Foi no começo deste século, talvez pela chegada da internet, com blogs, e a formação de grupos virtuais de leitura, que começamos a escrever e publicar literatura de entretenimento. Como vivi esta época, Paisagens Noturnas, com o detetive Alyrio Cobra, teve sua primeira edição em 2003, vou falar um pouco sobre os pioneiros que lutaram a fim de abrir espaço para a literatura de entretenimento.

Em 2003, meu amigo Luiz Eduardo da Matta publicou um artigo no Digestivo Cultural (publicação on-line, referência cultural pioneira que existe até hoje) falando sobre um movimento que ele liderou: o LPB. Na época, estava no auge o MPB, movimento que promovia a Música Popular Brasileira, foi quando ele criou o LPB, Literatura Popular Brasileira. Este movimento foi prestigiado por autores de literatura de entretenimento, desde André Vianco com seus vampiros, até euzinha com meu detetive Alyrio Cobra.

O artigo era: “A LPB e o thriller verde-amarelo”. Nele Luiz Eduardo da Matta fala justamente sobre o descaso das editoras e da crítica na literatura de entretenimento e a consequente escassez de uma produção condizente com os que os brasileiros liam desta literatura importada e traduzida. Falava também que os poucos que escreviam, com o descaso tanto da crítica especializada como das editoras, iam perdendo o ânimo. Depois deste artigo, ele publicou outros sobre o assunto no Digestivo Cultural e no site Paralelos, o que gerou acirradas discussões sobre o assunto. (Os artigos ainda podem ser lidos no Digestivo Cultural on-line).

Na época ainda não existia a Amazon do Brasil. Era preciso uma editora com conta bancária nos Estados Unidos para fazer a publicação. Mas começaram sites onde os autores podiam publicar seus livros que eram baixados e lidos. Foi no site HOTBOOK que meu detetive Alyrio Cobra deu seus primeiros passos. Embora o nome do site fosse Hotbook, não era para livros eróticos, mas para todos os gêneros literários. Na época também surgiu o Orkut, uma rede social onde se formavam grupos, enfim, foi um começo para que muitos livros fossem escritos ou mesmo desengavetados e começassem a aparecer.

Pouco depois chegou a Amazon.br, o que foi um marco para os escritores. No começo a conversão dos livros era bem complicada, os especialistas eram caros, mas os livros pipocavam na plataforma. Eram lidos e criticados! Novas redes sociais surgiram, como o Facebook, que ajudou muito os escritores.

Já em 2012, o jornalista, escritor, doutor em literatura e professor da UFRJ, Felipe Pena, convidou os autores que estavam publicando e começavam a se destacar nas redes sociais para montar uma antologia. Com alusão ao título da antologia Zero Zero, organizada por uma editora de elite com a ambição de escolher os mais importantes nomes da literatura nacional contemporânea, Felipe Pena reuniu autores que, apesar de terem uma enorme empatia com o público, jamais seriam escolhidos para uma publicação dessas, tais como Eduardo Spohr, Talitha Rebouças, André Vianco, Vera Carvalho Assumpção e muitos outros. A antologia contém 20 contos e ainda está à venda na Amazon.

Nossa antologia foi publicada pela Editora Record em 2012, com lançamento na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, seguido por lançamentos na FLIP, em São Paulo e outros, e foi um marco na literatura de entretenimento no Brasil.

Hoje temos diversos autores independentes publicando obras excepcionais que, aos poucos, vão ganhando espaço.

Posso dizer que a Caravana é uma editora que abraçou a causa dos autores independentes e vem nos publicando e fazendo não só que conquistemos leitores, como está abrindo espaço para que conquistemos outros países, como a Argentina e agora também Portugal e França.

Vera Carvalho Assumpção criou o detetive Alyrio Cobra, que protagoniza diversos romances e contos (Paisagens noturnas, Royal Destiny etc.). Criou também a detetive Dagmar Castro (Terninho cor de vinho e Fantasmas de Cavendish). Foi palestrante na BAN (Buenos Aires Negra), na Quinta Noir da Flipoços e na PAN (Porto Alegre Noir). Recebeu diversos prêmios, entre eles: Prêmio Bunkyo de Literatura, Prêmio Ecos de Literatura de melhor autora e Prêmio Aberst de Literatura pelo conjunto da obra. Tem publicado em Portugal A história exemplar de uma família cafeicultora de origem portuguesa.

3 Comments

  1. Acredito que é bem importante os escritores conhecerem os pioneiros, que abriram caminho, para que a literatura de entretenimento e de gênero ganhasse força entre nós brasileiros.

  2. Esta crônica me faz refletir sobre como a literatura de entretenimento brasileira percorreu um longo caminho para se firmar no cenário literário. Vivemos uma época em que poucos lembram das dificuldades iniciais — de como era preciso “rezar” para se conectar à internet com aquele clássico priii prooo, e de como o celular de hoje, com seus apps e redes sociais, evoluiu de um simples telefone de disco. Na literatura, vivemos uma revolução semelhante. De um mercado dominado por obras estrangeiras, traduzidas e prontas para vender, passamos a ver autores brasileiros, como a própria Vera cita em sua crônica, autores brasileiros com coragem e criatividade e espírito pioneiro, que antes lutavam para serem ouvidos, hoje têm novas ferramentas para contar suas histórias e se conectar diretamente com seus leitores. Isso é parte da nossa evolução como autores e como sociedade. Só agradecer a vocês autores pioneiros que abriram tantas portas para nós, jovens autores.

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