Mui triste é ser latino-americana: Lima Barreto, Machado, Isabel Allende, Maria Firmina, Borges, Cortázar, Rulfo, García Márquez, Rosa e Prada

Há uma tristeza que sopesa meu coração desde minha tenra adolescência: a tristeza daquilo que a América Latina poderia ter sido — e não o foi. Acompanha-me o leitor nesta crônica que o explica:

No almoço, Taci se aproxima de minha mesa e sentamos juntas para comer. Estamos na segunda semana de agosto, e ela me pergunta sobre a Festa Literária Internacional de Paraty — Tinha tanta vontade de participar um dia! — após o convite para acompanhar-me no próximo ano, ela, com voz meio embargada, meio tímida, adentra outro assunto: nestas férias, li O Cortiço. Por uma semana não consegui sentir outra coisa senão o peso que essa leitura me rendeu. Como a literatura daqui é diferente da europeia, não? Dá uma tristeza, um nó na garganta…

Eu não a pude desmentir. Esta confissão misturada com indagação me transportava a tempos remotos, à época dos meus 16 anos, quando também eu descobria esta mesma dor. Na adolescência, não me fartava de estudar Bolívar, Guevara, Fidel, Olga, Prestes, Mariátegui etc. Meu maior sonho era a construção de uma América Latina grande e independente, livre do cabresto colonizatório, que valorizasse suas culturas indígenas e negras. Nunca me esqueço da felicidade que senti ao receber de presente um dicionário de tupi antigo de minha madrinha, e um livro sobre independência econômica latino-americana, a partir do eixo Brasil-Argentina, de uma colega de classe. Por muito tempo, semelhante a Policarpo Quaresma, lutei contra moinhos de vento e esforcei-me por manter viva esta resistência quixotesca. Mas, ai!, pobre de mim!, pois era em meio a tão intensa efervescência de estudos, idealizações e engajamento político que descobria que não poderia contornar a realidade de que mui triste é ser latino-americana — pois bem se sabe que todos aqueles que buscaram amar esta pátria, encontraram nisso grande empecilho. Um dos maiores exemplos de tal fenômeno erigiu Lima Barreto, na composição trágica de sua personagem Policarpo.

Policarpo Quaresma, patriota inveterado, encontra seu primeiro impasse quando busca elevar o tupi à língua oficial do Brasil — chamado de louco, desperta raiva em seus opositores: pode alguém buscar alguma mudança tendo o amor à pátria como único fim? Impossível! Busca ele outro ganho que ignoramos, desconfiavam. Posteriormente, quando Policarpo percebe que não poderá atuar na superestrutura da nação, volta-se para a agricultura, buscando desenvolver agrariamente o seu adorado país. E, aqui, vêm à tona duas particularidades da formação brasileira: é visível como não poucas personagens literárias que buscam o desenvolvimento da nação, ou o seu próprio desenvolvimento via ascensão de classe, acabam desembocando na esfera rural — como é o caso de Riobaldo, de Grande Sertão: Veredas, que da jagunçagem ascende à aristocracia agrária. A segunda particularidade é que este desenvolvimento brasileiro conserva em si o escravagismo, como é o caso também de Policarpo, amante da nação que luta por sua liberdade econômica e desenvolvimento, mas que em seu sítio Sossego mantém Anastácio, um preto velho que lhe serve mesmo após a abolição da escravatura.

Uma terceira particularidade da formação brasileira e latino-americana, evidenciada também pelo gênio de Lima Barreto, é a de que nada é estável na América Latina: nossa organização se dá pela instauração de regimes ditatoriais intervalados. Não à toa a narrativa de Policarpo passa-se durante a ditadura de Floriano Peixoto e termina com Policarpo preso político, retaliado após tanto lutar por justiça e planos desenvolvimentistas nacionais. Para adensar nossa prosa, relembremos uma conversa interessantíssima à maneira da jumenta de Balaão, que se dá entre dois burros na crônica de Machado “Os bondes e os burros”.

Quando um burro, analisando o desenvolvimento ecomômico da cidade do Rio, volta-se para outro burro e demonstra crer que a instauração do bonde elétrico os salvaria da exploração e libertaria-os do servilismo, é com muito cinismo que o outro lhe responde: “O bond elétrico apenas nos fará mudar de senhor. Nós somos bens da companhia. Quando tudo andar por arames, não somos mais precisos, vendem-nos. Passamos naturalmente às carroças”. A despeito de quem vira em nossa formação beleza e potencialidades, o gênio de Lima Barreto e Machado, dois escritores negros realistas, denunciou aquilo que, posteriormente, Florestan Fernandes explicaria em termos econômicos:

O Brasil, nascido do processo de expansão que marca a passagem dos escombros da sociedade medieval europeia à ascensão da nova sociedade, surge como combinação de grandes plantações, trabalho escravo e expropriação colonial. A colonização erigiu-nos enquanto país de senhores rurais, e nossa independência não significou senão a ascensão destes senhores rurais à aristocracia agrária, num momento em que a Inglaterra tornava-se hegemônica, encabeçando o capitalismo globalmente. Do sistema colonial passamos ao neocolonial: uma transição à expropriação legal de extração de riquezas. Esta formação enquanto país relegado a produtor de mercadorias tropicais nos impediu o desenvolvimento pleno enquanto nação. E este complexo movimento transicional Machado eternizou na imagem do burro que muda de senhor, diante do advento do bonde elétrico no Brasil, instaurado pela companhia estadunidense Botanical Garden Railroad à época. E, se pelas mãos dos Estados Unidos passávamos à instauração do bonde elétrico, pelas mesmas mãos passaríamos ao financiamento de novas ditaduras na América Latina.

Quem muito bem soube retratar a violência que é se viver num país sob ditadura civil-militar foi o autor argentino Cortázar. Em seu conto “A Casa Tomada”, dois irmãos, longe de tudo e de todos, vivem numa casa que, pouco a pouco, vai sendo tomada, não se sabe por quem, não se sabe como. A única coisa que aprendem é a adaptar-se e contentar-se cada vez com menos espaço e menos liberdade dentro de sua própria morada, diariamente furtada de si. Nesta trama, irmão e irmã vivem uma estranha relação de interdependência e ares incestuosos, que muito nos lembra da relação de Donis e sua irmã, personagens de Pedro Páramo, romance do mexicano Juan Rulfo que inaugura o realismo mágico na literatura.

A persistência de imagens de violência sexual, abusos e relações incestuosas na literatura latino-americana não nos deixa esquecer a violência que é passar de senhor a senhor, de ditadura a ditadura, de colonização a neocolonialismo. Ao retomar constantemente o simbolismo da violação da vedação do incesto — lei que reconhecidamente inaugura a civilização —, nossa literatura reforça a América Latina enquanto tirania doméstica, que não respeita sequer esta lei básica civilizatória e que, portanto, como poderia assegurar a dignidade humana de americanos que não sabem senão viver em regimes de exploração, colonização e ditaduras? Pois quem não chorou com a pequena Remédios em Cem Anos de Solidão, do colombiano García Márquez, que morre extremamente jovem, por seu corpo ainda infantil não suportar a gravidez de gêmeos, após o casamento forçado com o Coronel Aureliano Buendía? E quem não experimentou enorme tristeza e não se compadeceu de cada mulher que era violada por Pedro Páramo, no romance de Rulfo; e por Esteban Trueba, na Casa dos Espíritos de Isabel Allende — personagens que, desse modo, constituíam seu poder, patrimônio e território? Pedro Páramo, Riobaldo e Esteban Trueba, que compartilham das mesmas maneiras rudes e provincianas, são três personagens masculinas latino-americanas de origem humilde que ascendem de classe por meio do latifúndio, do abuso de poder e do abuso de vulneráveis. E não é exatamente buscando anacronicamente sustentar a organização patriarcal — esfacelada pelo capitalismo, que morto se arrasta em nossas terras latino-americanas — que se impõe o abuso de crianças, o estupro sistemático de mulheres, a escravização dos escravizados que migraram ao trabalho livre e a degradação pelo incesto? E, por isso, meus caros leitores, não me parece exagero afirmar que a América Latina degrada-se na tristeza, localizada neste não-lugar que se move através dos mortos, tanto na literatura, quanto em nossa trágica realidade.

Se Rulfo toma como pano de fundo de seu romance a particularidade da formação mexicana no período de transição capitalista; Isabel Allende, n’A Casa dos Espíritos, explora a posição do conservadorismo agrário no desenvolvimento capitalista latino-americano, que barra o desenvolvimento humano no apoio a ditaduras. O ápice desta posição tosca é ilustrado por Esteban Trueba, oligarca e senador pelo Partido Conservador que, servido em seu latifúndio por “escravos remunerados” a gozar de impunidade, teme as ideias revolucionárias de sua neta Alba, apelidadas por ele de “ideias bolchevistas”, que convençam os empregados de que merecem melhores condições de vida e salário justo. Ao deparar com a personagem Esteban, que se assusta com o “cheiro do comunismo” na América, a eleição de um candidato comunista, a reforma agrária e a organização de sindicatos, e também com mulheres que se pintam, cortam os cabelos curtíssimos, usam chapéu coco e lutam pelo sufrágio universal, seria-nos possível não remeter à Operação Condor? Organização secreta dos E.U.A que promoveu repressão política e financiamento das ditaduras no Cone Sul, a serviço de sufocar qualquer desenvolvimento humano, econômico e intelectual por cá — em curto e longo prazo, cujos frutos da interdição de nosso desenvolvimento colhemos até hoje.

E se restam dúvidas aos que me leem, por acaso, das hodiernas consequências do desenvolvimento latino-americano barrado, basta voltarem-se para a atual situação agrária mundial, fruto da divisão social do trabalho: enquanto a U.E. caminha a passos largos na restrição do uso de agrotóxicos, o Brasil é um dos países cujo uso vem, a cada ano, tornando-se desenfreadamente legalizado, sendo utilizado em grande peso principalmente na pecuária. Embora a ciência já tenha comprovado que é possível produzir alimentos em larga escala utilizando nada, ou muito poucos agrotóxicos, seguimos reféns do uso de substâncias tóxicas que atacam nosso sistema nervoso e podem produzir malefícios no desenvolvimento infantil, desregulação hormonal, transtornos psiquiátricos, câncer e doenças neurológicas — e assim retomamos a configuração econômica do Brasil, que impede qualquer revolução em prol de nosso pleno desenvolvimento. Não nos restam dúvidas de que o irracionalismo da produção capitalista agropecuária impede nosso avanço, posto que a ciência já avançou, mas a valorização do valor impede que vivamos conforme a racionalidade da produção da vida. Não à toa temos em Dom Casmurro uma configuração patriarcal que não se sustenta mas, finada, se arrasta — tendo por único ato que a vivifica o sofrimento ressuscitado pelo sentimento, também morto, de posse; em Pedro Páramo, vive um sistema morto de mortos que governam os vivos; em “A Casa Tomada” e A Casa dos Espíritos, a história de golpes na América Latina mantém seus habitantes a trabalhar para criminosos; em Grande Sertão: Veredas, um jagunço, cujo horizonte é vir a ser aristocracia agrária no Brasil, tem sua paixão encarnada em Diadorim, a personagem mais revolucionária do romance em questão, que se entrega à morte no combate final em honra à vida de seu pai morto.

Maria Firmina dos Reis marcou época ao estrear como a primeira romancista negra da América Latina, com Úrsula, em 1859: primeiro romance abolicionista do Brasil. Úrsula, moça branca e livre, apaixona-se por Tancredo, com quem vive um amor sem medidas. Seu monstruoso tio, entretanto, que há muito matara o pai da sobrinha, ressurge quando Úrsula é já adulta. Obcecado por ela, persegue-a e impede seu casamento com o nobre Tancredo, ao matá-lo. O tio comendador, ao gozar de poder ilimitado, a salvo de qualquer consequência, casa-se à força com a sobrinha, que se torna louca diante de tanta desgraça. A escritora Maria Firmina — filha bastarda também de um comendador, como aponta sua biografia —, denunciou não apenas a delicada posição feminina no Brasil, mas também a escravocrata. Em seu conto “A escrava”, uma mãe negra, fugida da casa de seu senhor, embrenha-se pela floresta e, ainda que encontre proteção, depara com a morte, já louca, por não conseguir aceitar a venda para o Rio de Janeiro de Carlos e Urbano, seus dois filhos de oito anos. A personagem escravizada morre amaldiçoando seus carrascos, ao lado do filho Gabriel.

A partir da heroína Úrsula, que experimenta a morte em vida, com um sorriso débil, enquanto afaga a invisível sombra de seu falecido noivo e aperta flores secas do noivado contra o peito, a América Latina assume, nesta crônica, uma última forma: a da noiva morta.

As personagens Ismênia, de Triste fim de Policarpo Quaresma; e Rosa, de A Casa dos Espíritos, compartilham um mesmo fim: ambas, esperando pelo noivo que adia há anos o casório, morrem jovens, antes de poderem selar o enlace matrimonial. Ismênia e Rosa são lamentadas e enterradas com as vestes brancas que usariam ao serem desposadas — o que, nos dois romances, é retratado de maneira extremamente bela, sensível, delicada e sublime. Este retrato da noiva morta lembra-nos ainda da Antígona de Sófocles, que, como rebento novo, morre lutando contra uma lei velha e caduca, antes de poder ser dada em casamento. A interessante figura da donzela que mal desabrochou para a paixão e já experimentou a morte carrega em si também uma interessante contradição na literatura latino-americana: nem Ismênia nem Rosa faziam caso de seus casamentos — como também Diadorim, de Grande Sertão: Veredas. Seus corações, bem como o de Antígona, estavam em outro lugar, um lugar muito mais interessante, voltado para lutas e discussões à frente de suas épocas: e, por isso, talvez, todas morram tão cedo — pois sua verve não corresponde à sua contemporaneidade.

A América Latina é triste e sua literatura não o esconde, pelo contrário, ela o reafirma. E é por isso que lhes advirto, minhas caras irmãs, de que mui triste é ser latino-americana. A produção capitalista é irracional e, portanto, apenas nos resta a organização racional da vida. O consumismo jamais foi um problema do capitalismo, mas, sim, a crise de subconsumo, visto que a organização deste modo de produção, enquanto desenvolvimento orgânico do feudalismo, não se canaliza na distribuição social da produção social que, já organizada em larga escala, é capaz de alimentar e servir a todos do globo, que tudo produzem. Quem suporta ser um ser racional vivendo num modo de produção irracional que, ao passo que produz riqueza, produz também miséria?

Não suponhamos, simploriamente, entretanto, que apenas a Latino-América é triste, pois, em verdade, todo o globo é triste, porquanto não há desenvolvimento integral enquanto houver subdesenvolvimento local. Nem os mais desenvolvidos países capitalistas da atualidade podem se gabar de serem livres, pois não o são. Em todo o globo há apenas seres mutilados, impedidos de se desenvolverem livre e plenamente, por conta de um sistema morto que se arrasta por todos os nossos poros e territórios conhecidos. A liberdade será global, ou não será. E a correta compreensão desta contradição dialética bem expressou Borges n’“O evangelho segundo Marcos”.

Neste conto, tudo muda quando um rapaz portenho, Baltasar Espinosa, filho de um livre-pensador e de uma mãe católica, adentra a fazenda onde moram os Gutres e empeça a ler o segundo evangelho a eles, descendentes da mestiçagem entre indígenas e peões de terras altas da Escócia — que misturavam calvinismo a superstições dos pampas e, como crianças mantidas na sua eterna menoridade, vivem sob a tutela dos patrões. Em determinado momento da leitura bíblica, ocorre a Baltasar que havia, em verdade, duas histórias que sempre se repetiam: “A de um barco perdido que busca nos mares mediterrâneos uma ilha amada e a de um deus que se faz crucificar no Gólgota”. Ora, diante de tal pista, parece-nos impossível não inferir que, se a história europeia reconstrói a primeira narrativa de viagem à Ítaca e descobrimento do Novo Mundo; a história latino-americana reconstrói o sacrifício e a entrega deste novo inocente mundo pela salvação da humanidade. Em um polo, viagem e descoberta sublimes; no outro, a entrega de um corpo mortificado pelo desenvolvimento do resto do globo, onde o capitalismo já se vê avançado. Estes dois pólos, interdependentes e indissociáveis entre si, encontram a expressão final da interdição de seu desenvolvimento enquanto linha particular quando, após possuir a jovem moça Grute, que se entregara a Baltasar como cordeiro ao matadouro — tremendo, sem nenhuma palavra sequer proferir —, Baltasar tem sua siesta interrompida por marteladas dos Grutes, que arranjavam vigas para construção de sua cruz. Esta mesma tradição, composta por duas linhas complementares — de descobrimento de um, e sacrifício do outro —, reafirma-se na obra Memórias de minhas p. tristes, de García Marquéz, em que uma simples garota de 14 anos, analfabeta e condenada a pregar botões incessantemente para sustentar sua família rende-se à prostituição, como forma de complementar sua renda. Se, por um lado, o narrador, um jornalista de 90 anos, diz ter, enfim, descoberto o amor neste censurável encontro forçado; por outro, da jovem moça prostituída que se encontra sempre em estado de torpor, à qual não é atribuído nenhum momento de lucidez ou fala consciente, diz-se que “[…] dormia com os braços abertos em cruz” quando encontrada por ele, ao passo que sua cafetina afirma que a menina “[…] já estava instruída para o sacrifício”. Ademais, Rosa Cabarcas, assinalada como a “dona” da moça, chega a aconselhar o velho que com a garota se case, insinunado o casamento como prostituição mais barata. Nesta obra em que a mulher latino-americana é denunciada enquanto produto e posse venável, lembramos o papel exercido também pela figura feminina em Angústia, de Graciliano Ramos, e no poema “Pasárgada”, de Manuel Bandeira.

Em Crônica de uma morte anunciada, também de García Márquez, este notável par dialético vítima-conquistador apresenta-se em novos contornos. Nela, é narrada a morte de Santiago Nasar, um rapaz de origem árabe, advindo de uma família de posses, que abusa de Divina Flor, a filha de sua empregada, diariamente, como que por esporte. Tudo muda quando os irmãos Vicarios resolvem tirar sua vida de forma brutal, esquartejando-o e deixando em sua mão um estigma de crucificado. O motivo é a irmã Ángela Vicario ser devolvida pelo marido Bayardo San Román, poucas horas após o casamento forçado e, ao ser perguntada por quem fora deflorada, apontar o nome de Santiago. A crônica torna-se mais interessante quando aprofunda-se na psicologia das personagens, trazendo complexidade a cada uma delas, e aparta-se de uma análise simplista e superficial do acontecido. Passando pela confissão de diversos moradores das redondezas, a história que, a princípio, parecia uma simples vingança por honra toma um novo contorno. Ángela deixa de ser uma vítima passiva do casamento forçado com Bayardo quando, após muitos anos longe dele, o vê de relance num espelho e começa a assediá-lo com o envio de quase duas mil cartas, dissimulando tristeza, saudade e amor, por dezessete anos ininterruptos, como forma de vingar-se de sua mãe e do marido pelo casamento ao qual fora obrigada aos 20 anos. A suposta ação de Santiago, nome indicado por Ángela, é também posta em dúvida a partir do relato de vários vizinhos e familiares. Por fim, a crônica faz-nos saber que, em verdade, não há apenas uma, duas ou três vítimas nesta história, mas o que encontra o investigador doze dias após o crime é todo “um povo em carne viva”.

Outro forte exemplo dessa ambiguidade dialética se vê n’A Casa dos Espíritos, em que Clara, claríssima, clarividente, personagem que unifica a trama neste romance de Isabel Allende, é narrada desde a sua infância numa família tradicional, passando por um casamento forçado, tornando-se mãe, avó e, por fim, decidindo partir deste plano. Clara, embora passe por um momento de mutismo voluntário quando jovem, anota tudo que julga interessante em seu caderno de escrever a vida. Esta prática de tornar não só a memória, mas a fantasia viva e acessível por meio da escrita, será retomada por sua neta Alba e o avô Esteban Trueba que, já no fim de sua vida, arrependido por apoiar o golpe militar que lhe custou a vida de um filho, resolve narrar com a neta a história dessas três gerações que, partindo de uma família conservadora e repressora, vive a pecha de suas mulheres, a partir da segunda geração, apaixonarem-se por homens pobres e revolucionários, comunistas inveterados que realçam os antagonismos de classe e suas frações no latifúndio dos Truebas.

A conversa do almoço terminou com Taci a me dizer que eu deveria ser uma alma muito antiga — pois como era possível a uma jovem moça não apenas tanto conhecimento, mas a compreensão de tanta tristeza e sabedoria? Entendi, por fim, que se a uma alma antiga cabe honrar os seus mortos e lutar pela liberdade em respeito àqueles que pavimentaram seu caminho, cabe-lhe também a explicação da História por meio de uma costura de estórias, como o fizeram Clara e Alba ao dar cores, memória e sentido à ferida do golpe militar sofrido; como o faz Sherazade, que nina os nossos sonhos e o nosso sono. Nos versos do peruano Manuel González Prada, intelectual e militante que encabeçou um projeto de união entre vanguarda literária, indígenas e operários insurretos, “Passam anos, passam séculos/ passam eras e eras,/ mas nunca mais do sonho/ despertarão os Gigantes”.

Giancarla Francovig Peralta Ceravolo é escritora e tradutora literária. Graduada em letras português e árabe pela USP, é mestra em educação, linguagem e psicologia e doutoranda em cultura, filosofia e história da educação pela mesma universidade. Foi medalhista de ouro em canto nas Olimpíadas Internacionais de Língua e Cultura Turcas (Istambul, 2013). Dedica-se à pesquisa da composição poético-catártica, da filosofia aristotélica à psicologia histórico-cultural.